YOGA

INTRODUÇÃO GERAL

A palavra sânscrita “yoga” é masculina e é pronunciada com a vogal “o” fechada (como se fosse “ô”), pois não existe o som “ó” em sânscrito. Às vezes ela é aportuguesada como “ioga”, mas não há necessidade de mudar sua grafia.

O substantivo “yoga” vem da raiz verbal “yuj” que tem dois significados: (1) juntar, prender, unir, conectar; (2) preparar, usar, aplicar, realizar. Por isso, a palavra “yoga” também é utilizada em dois sentidos principais: (1) união, junção, conexão; (2) uso, preparação, aplicação, realização, método. A palavra “yoga” é utilizada em muitos contextos diferentes. Na matemática indiana, significa adição ou soma; na gramática, a conexão de duas palavras; na astronomia, uma constelação (combinação de estrelas) ou uma conjunção de astros. No contexto filosófico e espiritual indiano, “yoga” pode representar um método de transformação da pessoa, ou o resultado dessa transformação. 

O antigo yoga indiano era muito diferente daquilo que vemos nas academias de yoga atuais. Pode-se falar sobre o “yoga tradicional”, que se desenvolveu na Índia há muitos séculos, sem sofrer influência ocidental; e sobre o “yoga moderno”, que começou a surgir no final do século XIX e início do século XX, sob forte influência europeia (e, depois, dos Estados Unidos) e que é o que costuma ser ensinado hoje em dia. 

O praticante do antigo Yoga era chamado de “yogin” e o correspondente feminino é “yoginī”. Eram pessoas que se dedicavam intensamente às práticas de Yoga, deixando de lado qualquer outro interesse. Os atuais professores de Yoga e seus alunos não possuem uma vida semelhante à dos antigos yogins e yoginīs. 

Tanto o yoga tradicional quanto o yoga moderno podem ser subdivididos em vários tipos. O yoga tradicional foi se desenvolvendo gradualmente ao longo de sua longa história e produzindo diferentes métodos para atingir sempre o mesmo objetivo: a transformação espiritual e a libertação (mokṣa) do ciclo de renascimentos (saṁsāra). O yoga moderno tem como foco principal o corpo, dando ênfase principalmente ao domínio de posturas (āsanas), embora exista também o yoga moderno esotérico, que privilegia práticas de meditação.

 

 

YOGA TRADICIONAL 

Damos o nome de “Yoga tradicional” a um conjunto de técnicas de transformação espiritual surgidas na Índia em um período antigo, anterior à influência do pensamento ocidental – aproximadamente até o século XVIII. A partir do século XIX começa a haver uma forte influência ocidental na Índia, trazida pelos ingleses, resultando na criação do “Yoga moderno”, que é muito diferente do antigo.

O conceito tradicional de yoga surge, no pensamento indiano, utilizando este nome, em obras compostas alguns séculos antes da era cristã: as Upaniṣads mais antigas e o Mahābhārata. Nessas obras, o yoga não é apresentado como uma prática física e, na verdade, não havia indicação de posturas (āsanas) nesse período. Tratava-se de um conjunto de práticas internas levando à libertação espiritual (mokṣa) do ciclo de renascimentos (saṁsāra). Essa dimensão espiritual do yoga antigo foi praticamente esquecida nas escolas modernas de yoga. É impossível compreender o objetivo e as técnicas do yoga tradicional sem captar o seu contexto, dentro do Hinduísmo, partindo das ideias de karman (as ações e suas consequências), o ciclo de renascimentos (saṁsāra), a natureza do ser humano e seus vários níveis ou camadas (kośas), a essência mais profunda do ser humano (ātman), a natureza do Ser Absoluto (Brahman) e outros conceitos fundamentais do pensamento tradicional indiano. 

Os métodos mais antigos do yoga tradicional indiano eram ascetismo (tapas) e meditação (dhyāna). Os aspectos éticos do yoga (yama e niyama) parecem ter surgido apenas depois, por influência do Jainismo e do Budismo, que davam enorme importância a isso. O yoga indiano sofreu muitas transformações ao longo dos séculos, porém sempre mantendo seu objetivo central. Antes do início da era cristã já existiam Karma Yoga, Bhakti Yoga, Jñāna Yoga e Rāja Yoga. Na fase seguinte, em um período que corresponde à Idade Média europeia, surgiram outros métodos como Tantra Yoga, Mantra Yoga, Laya Yoga e Haṭha Yoga. Embora hoje em dia o nome “Haṭha Yoga” seja identificado com práticas físicas (yoga postural), mil anos atrás ele era um método muito mais complexo, incluindo práticas de meditação e samādhi. 

O yoga tradicional indiano nunca foi ministrado em salas especiais, nem em horários marcados, nem em grupos; não fornecia certificados, não era cobrado, não era institucionalizado (não havia diretores nem hierarquia). Ele era ensinado e aprendido de uma pessoa para outra pessoa, informalmente. Geralmente o yoga era praticado por pessoas que não tinham mais nenhum interesse pela sociedade, por trabalho, por família, por riquezas, por prazeres e outros valores semelhantes. De acordo com a antiga teoria indiana dos quatro objetivos humanos (puruṣārthas), a libertação (mokṣa) é superior a todas as outras metas que podem ser buscadas. Por isso, o yogin ou yoginī se dedicava intensamente às práticas que aprendia, deixando tudo o mais de lado, pois queria caminhar rapidamente em direção à libertação espiritual. Em sua grande maioria, os antigos yogins e yoginīs eram pessoas isoladas que não tinham casa, que vagueavam mendigando alimentos e que não se importavam com o conforto material. Levavam uma vida semelhante à dos sādhus indianos atuais. Outros se reuniam em pequenos grupos, nas florestas ou nos arredores das vilas e cidades, desenvolvendo suas práticas em conjunto. 

 

 

HISTÓRICO DO YOGA TRADICIONAL

Primeiramente, é importante dizer como o yoga tradicional indiano NÃO COMEÇOU. O yoga não tem cinco mil anos. Ele não começou na civilização do Vale do Indus, nas cidades de Harappa e Mohenjo-Daro. Ele não começou com os Vedas. A prática de Sūrya Namaskāra não tem milhares de anos. As posturas (āsanas) que conhecemos não têm milhares de anos. Não se iluda com declarações a respeito de uma imensa antiguidade de tudo o que se refere ao yoga.

Há muitas afirmações sem nenhuma fundamentação sobre o início do yoga. As únicas afirmações que fazem sentido, sobre a história do yoga, são as que se baseiam em evidências históricas (senão, são apenas lendas). Sim, o yoga indiano é antigo; mas é preciso procurar informações confiáveis sobre sua história e não aceitar qualquer coisa que digam a esse respeito.

Algumas pessoas tentam associar a origem do yoga à civilização do vale do rio Indus, que se desenvolveu quatro mil anos atrás, alegando que foram encontrados sinetes com imagens que parecem mostrar uma pessoa assentada em postura de yoga e que talvez representasse Śiva. Porém, isso é apenas uma especulação. Não sabemos o que essas figuras representavam. Não existem inscrições ou textos dessa época falando sobre yoga.

As obras indianas mais antigas que conhecemos são os Vedas, que foram compostos aproximadamente entre 2.500 e 1.500 a.C. Os hinos dos Vedas não falam sobre yoga no sentido de um método de transformação espiritual. A palavra “yoga” aparece, sim, nos Vedas, mas em seu sentido comum de junção entre duas coisas. Os Vedas nem mesmo falam sobre renascimento, karman ou libertação espiritual (mokṣa). Essas ideias só começam a aparecer em obras posteriores chamadas Brāhmaṇas e Āraṇyakas - porém estas também ainda não se referem ao yoga. O conceito tradicional de yoga surge, no pensamento indiano, utilizando este nome, em obras compostas alguns séculos antes da era cristã: as Upaniṣads mais antigas e o Mahābhārata. Nessas obras, o yoga não é apresentado como uma prática física e, na verdade, não havia indicação de posturas (āsanas) nesse período. Tratava-se de um conjunto de práticas que procuram levar à libertação espiritual (mokṣa) do ciclo de renascimentos (saṁsāra), o qual é produzido pelos efeitos das ações (karman). Também é nessas obras que surgem de forma clara as mais antigas explicações sobre a natureza do ser humano e seus vários níveis ou camadas (kośas), a essência mais profunda do ser humano (ātman), a natureza do Ser Absoluto (Brahman) e outros conceitos fundamentais do pensamento tradicional indiano que servem de base para o yoga tradicional.

As principais formas de yoga presentes nesses textos mais antigos são: o ascetismo (Tapasyā), a devoção (Bhakti), a meditação (Dhyāna), o yoga da sabedoria (Jñāna) e o yoga da ação (Karma Yoga). 

O yoga descrito por Patañjali na sua obra Yoga-Sūtra (talvez entre 300 a.C. e 300 d.C.), é um marco fundamental na história do yoga. O próprio Patañjali não deu nenhum nome específico ao seu método, mas ele foi posteriormente denominado Rāja Yoga (o yoga real ou régio). Costuma-se também chamar de “yoga clássico” o sistema apresentado no Yoga-Sūtra, o qual adotou como fundamentação o sistema filosófico Sāṅkhya. A Bhagavad-Gītā, que é uma parte do Mahābhārata, também associou o yoga ao Sāṅkhya, mas parece ser anterior a Patañjali e não o cita. Costuma-se chamar de “yoga pré-clássico” àquilo que surgiu antes de Patañjali, como, por exemplo, nas Upaniṣads mais antigas. 

Um pouco antes da era cristã já encontramos indícios da existência do Tantra, mas essa corrente apenas se encontra plenamente desenvolvida no início da era cristã. O Tantra Yoga é uma importante modalidade, que influenciou diversas tradições tanto dentro do Hinduísmo quando fora dele (Budismo Vajrayāna, Taoísmo etc.). Foi dentro do Tantra que se desenvolveu uma análise detalhada da estrutura sutil dos seres humanas, com seus canais e centros energéticos (nāḍīs e cakras). A partir do Tantra se desenvolveram ramos como o Mantra Yoga, cuja principal técnica é a repetição intensa de certas fórmulas sagradas (mantras) milhares de vezes; o Laya Yoga, que não era um simples relaxamento como se ensina atualmente, mas uma técnica de dissolução da individualidade; e o Haṭha Yoga (yoga do esforço), que introduziu muitas técnicas novas. Todos eles adquiriram grande importância entre os séculos VII e XII d.C. Dentro desse mesmo período ocorre o desenvolvimento de várias vertentes da filosofia Vedānta, que fornece uma base teórica para o Jñāna Yoga, mas não produziu novas técnicas.

Depois dessa época, dentro do yoga tradicional indiano (antes de haver influências ocidentais), foram compostas muitas obras explicando e detalhando os vários ramos de yoga, mas não surgiu nenhum método completamente novo. 

 

KARMAN E SAṀSĀRA

A palavra sânscrita neutra “karman” significa ato, ação, atividade, obra. Nos Vedas essa palavra era muito empregada para representar os rituais religiosos, que eram realizados para se obter algum resultado futuro (saúde, filhos, riquezas, poder, morte dos inimigos etc.). No contexto filosófico, karman passou a representar qualquer atividade realizada com alguma intenção (boa ou má). Essas ações produzem resíduos que ficam presos à pessoa e que são chamados vāsanā ou saṁskāra. Esses resíduos ou impressões latentes permanecem na pessoa e acabam produzindo efeitos posteriormente. Os resíduos das ações bem intencionadas produzem efeitos agradáveis; os das ações realizadas com má intenção produzem efeitos desagradáveis. Esses efeitos podem ocorrer durante a vida da pessoa; porém, se no momento da morte ainda existem muitos resíduos que não produziram efeitos, essa pessoa precisará renascer para receber os frutos de suas ações. Depois, na vida seguinte, acontecerá a mesma coisa; e assim por diante, produzindo um ciclo de renascimentos (saṁsāra). O tipo de nascimento que a pessoa terá depende da carga de resíduos que ela acumulou na vida anterior. Tanto o karman positivo (com boas intenções) quanto o karman negativo (com más intenções) produzem essas impressões latentes e renascimentos. Portanto, isso prende a pessoa ao mundo. 

É bom ou ruim ficar renascendo um enorme número de vezes? Os pensadores indianos afirmam que isso é ruim, pois em todas as vidas há sofrimento e a pessoa nunca atinge nenhuma felicidade permanente. Por isso, em vez de ficar presa ao saṁsāra, a pessoa deve tentar se libertar desse ciclo. A libertação do saṁsāra se chama mokṣa ou kaivalya. Ao contrário do que se costuma afirmar, na tradição indiana não se considera que ter uma vida dedicada a boas ações possa conduzir à libertação. Boas ações produzem resíduos e os resíduos produzem renascimentos. Se a pessoa realizou muitas ações com boas intenções, seu renascimento será bom; mas ela não se libertará do saṁsāra, não atingirá mokṣa.   

 

LIBERTAÇÃO ESPIRITUAL (MOKṢA)

A libertação espiritual (mokṣa) é o objetivo central de todos os tipos tradicionais de yoga indiano. Essa libertação tem dois aspectos: (1) livrar-se de uma coisa incômoda (o ciclo de renascimentos ou saṁsāra); e (2) obter um estado permanente de perfeição. 

(1) Para se livrar do ciclo de renascimentos, o yogin (ou a yoginī) precisa parar de produzir ações com boas ou más intenções (deixar de acumular os resíduos, vāsanā ou saṁskāra); e precisa se livrar dos resíduos que já foram acumulados antes. É possível agir sem produzir resíduos. Para isso, a pessoa deve agir sem objetivos, sem pensar no futuro, sem se prender às consequências de suas ações. Não se trata de fazer ações altruístas, boas para outras pessoas, porque isso significa ter boas intenções e acumular resíduos positivos. É possível agir de uma forma totalmente espontânea, a partir de um impulso que vem de sua sabedoria interna (buddhi) e que não tem nenhuma justificativa no futuro (nas consequências). Essa é a essência do Karma-Yoga. Dominar esse modo de agir é muito difícil, é claro, mas é um passo fundamental. Porém, mesmo se não produzir mais resíduos de suas ações, o yogin (ou a yoginī) já tem um enorme acúmulo de vāsanās ou saṁskāras de suas vidas anteriores e desta mesma vida (antes de aprender a agir sem objetivos). É preciso se “limpar” desses resíduos. Isso pode ser conseguido principalmente através de três táticas: (a) deixando o tempo passar, aceitando pacientemente as consequências de suas ações passadas; (b) acelerando o surgimento e esgotamento desses efeitos (especialmente das más ações) através de austeridades (tapas); e (c) destruindo os resíduos que ainda não estão maduros, através de vivências de união (samādhi). 

(2) A transformação espiritual do yogin ou da yoginī é acompanhada de processos muito profundos, com a ativação da buddhi (o órgão interno da sabedoria), entrada em estado meditativo (dhyāna) e vivências de união (samādhi), com a percepção do seu Eu mais profundo (ātman), contato direto com a divindade suprema (Īśvara ou Īśvarī) e vivências de união com o Ser Absoluto (Brahman). Tanto seu Eu mais profundo quanto o Absoluto são uma só coisa, de acordo com as Upaniṣads. A divindade suprema (Īśvara, se for masculina, ou Īśvarī, se for feminina) é uma forma personificada do Absoluto, uma manifestação intermediária que também conduz a Brahman. Unir-se a Brahman é ter vivências de um encontro direto com a Realidade, com a Consciência e com a Beatitude (sat, cit, ānanda). No decorrer da caminhada espiritual, o yogin ou a yoginī tem vivências de curta duração dessa realidade perfeita, em experiências de samādhi. Ao atingir a libertação, essa pessoa se une permanentemente ao Absoluto, perdendo suas limitações, como um rio que se funde ao oceano. Os resíduos do seu karman já não existem. A sua individualidade desaparece. Não há mais renascimentos, para essa pessoa.

 

 

OS QUATRO OBJETIVOS HUMANOS (PURUṢĀRTHAS)

Alguns séculos antes da era cristã, surgiu no pensamento indiano a doutrina dos quatro objetivos que movem os seres humanos: os puruṣārthas. 

(1) O primeiro deles é Kāma, que significa prazer. Buscar o prazer e fugir da dor é um objetivo comum tanto dos seres humanos quanto dos animais. Em alguns contextos, a palavra “kāma” pode significar prazer sexual, mas na descrição dos puruṣārthas trata-se de algo muito mais amplo. Se você quer se curar de uma doença, seu objetivo é kāma. Se você sente fome e quer comer, seu objetivo é kāma. Se você quer ficar em um local agradável e confortável, isso também é a busca de kāma. Trata-se de um valor essencialmente egoísta (“Eu quero me sentir bem, eu não quero sentir desconforto”).

(2) O segundo puruṣārtha é Artha, que significa riquezas e poder. Quando uma pessoa quer possuir bens (casa, carro, dinheiro no banco, roupas novas) apenas para possuir essas coisas (e não em busca de bem-estar), então seu objetivo é artha. A procura de status social, poder sobre outras pessoas, prestígio e fama, ser respeitado e elogiado - tudo isso também é artha. Esse também é um valor egoísta (“Eu quero ser rico, eu quero ser superior aos outros”).

(3) O terceiro objetivo é Dharma, que significa agir corretamente, cumprir suas obrigações. Na tradição indiana há deveres relacionados às outras pessoas (família, amigos, sociedade...) e também deveres em relação aos outros seres (dos animais até os seres divinos) e para consigo mesmo. Este é um objetivo que não é egoísta, pois trata-se de fazer o que é correto, e não para “se dar bem”. Se uma pessoa cumpre obrigações para fugir de castigos, para obter bem-estar, para obter riquezas e poder, então seus objetivos são egoístas e podem ser classificados como kāma e artha (e não dharma). Mesmo quando a pessoa está cumprindo o dever de estudar e se aperfeiçoar, por exemplo, se ela está fazendo isso apenas porque é sua obrigação, e não para ter status e poder, então ela não está sendo egoísta. Esse objetivo humano (dharma) é considerado superior a artha e a kāma.

(4) O quarto e último objetivo humano, que é considerado superior aos outros três, é Mokṣa, a libertação espiritual. Esse é o objetivo dos yogins e das yoginīs, no yoga tradicional indiano. Mokṣa é, por um lado, escapar do ciclo de renascimentos (saṁsāra); por outro lado, é atingir a união com o Absoluto (Brahman). À primeira vista, pode parecer que esse objetivo não é muito diferente de kāma, pois a pessoa está querendo se livrar de uma coisa incômoda (ficar renascendo sempre) e obter uma coisa agradável (um estado de perfeição). Porém, kāma é a busca de prazer e fuga do desprazer associados ao corpo, aos sentidos e ao mundo material. O yogin ou yoginī precisa ultrapassar kāma e se tornar indiferente a tudo o que vem do mundo material. Também é importante perceber que a busca de mokṣa não é um objetivo egoísta. É verdade que, no início de sua caminhada, o yogin ou yoginī pode ter sentimentos egoístas e pensar: “Eu quero me libertar, eu quero atingir o Absoluto”. Porém, ao longo de sua transformação espiritual, o ego dessa pessoa vai se desfazendo, desaparecendo. Ela continua sua caminhada espiritual, sem ter a expectativa de chegar a nada, seguindo impulsos de sua sabedoria interna e do poder divino (Īśvara ou Īśvarī) que passa a guiar sua vida. O rio flui até o oceano, sem desejos.

 

 

ASCETISMO (TAPASYĀ)

Um dos métodos mais antigos, mas que não costuma ser classificado como um tipo específico de Yoga, é o ascetismo ou austeridade (tapas, em sânscrito). Esse método é denominado Tapasyā e, muito raramente, como Tapas-Yoga. A palavra “tapas” significa, literalmente, calor, ardor. Pode também significar sofrimento, dor. É um nome técnico aplicado a diversos tipos de austeridades extremas, como certos tipos de jejum, ou ficar de pé, sem se deitar, durante anos. O asceta (tapasvin, ou tapasvinī no caso de mulheres) anula seu próprio desejo por prazeres (kāma) ou aquisição de bens (artha) e passa a procurar privação e dor, procurando ultrapassar os limites humanos. O sofrimento tem a função de purificação da pessoa, ou seja, eliminar as sementes deixadas por seus crimes ou más ações (pāpa) do passado, auxiliando na obtenção da libertação (mokṣa). Além disso, o acúmulo de austeridades muito difíceis produz mérito e leva à obtenção de poderes especiais. O ascetismo é um componente muito comum, na vida dos sādhus. 

 

JÑĀNA YOGA

Um segundo método, também muito antigo, é o Jñāna-Yoga, ou Yoga da sabedoria. É um processo pelo qual se procura captar o conhecimento espiritual mais profundo, através do estudo daquilo que os antigos sábios nos transmitiram. Não se trata de um estudo puramente intelectual, e sim de penetrar nessa sabedoria, chegar às vivências que os próprios sábios tiveram. Esse é o princípio fundamental de duas correntes filosóficas indianas de grande importância, o Sāṅkhya e o Vedānta. O estudo das antigas Upaniṣads pode ser considerado como uma modalidade de Jñāna-Yoga, pois esses textos procuravam levar a pessoa a essas vivências espirituais, através de uma série de instruções, incluindo processos de meditação. À medida que a pessoa fosse captando essa sabedoria, toda a sua vida iria se transformando, direcionando-o para o processo de libertação (mokṣa).

 

 

KARMA YOGA

Segundo o pensamento indiano antigo, o ciclo de renascimentos está associado às ações (karman) que a pessoa realiza ou, mais exatamente, às intenções com as quais ela age. Boas intenções acumulam uma “semente” positiva, que vai dar bons frutos; e más intenções acumulam uma “semente” negativa, que vai produzir maus frutos. Seja agindo com boas ou com más intenções, a pessoa acumula uma carga (saṃskāra, ou vāsana) que produz um novo nascimento. Assim, o único modo seguro de evitar o ciclo de renascimentos, atingindo a libertação (mokṣa), é deixar de realizar ações com boas ou com más intenções. Isso não significa ficar paralisado e deixar de agir, mas significa passar a agir de um modo completamente diferente daquilo que as pessoas “normais” fazem. Uma pessoa que simplesmente cumpra seu dever, sem nenhuma preocupação com os resultados futuros dessas ações, está realizando Karma-Yoga. No entanto, uma pessoa “boazinha” que dedica sua vida a fazer o bem para os outros, não está praticando Karma-Yoga: está acumulando méritos positivos para sua próxima vida. A obra Bhagavad-Gītā, composta alguns séculos antes da era cristã, é a mais antiga escritura que descreve detalhadamente o Karma-Yoga, além de outras modalidades como o Jñāna-Yoga e o Bhakti-Yoga.

 

 

BHAKTI YOGA

Bhakti significa devoção em relação a uma divindade. Bhakti-Yoga é uma modalidade de Yoga essencialmente ligada à prática religiosa. Porém, não se trata de uma simples prática religiosa, como fazer preces e cumprir seus deveres. É muito mais do que isso. Em qualquer religião, no mundo todo, há os fiéis “comuns”, que fazem um mínimo esforço para seguirem os preceitos de sua religião: há outras pessoas que estão mais envolvidas com a religião e que a ensinam aos outros; e há místicos, que querem atingir muito mais do que isso. Eles pretendem atingir o contato direto com a divindade – não em um paraíso futuro, mas aqui, nesta vida. Dentro do Hinduísmo, o místico é o bhākta ou bhakti-yogin, que procura se conectar diretamente com uma das muitas divindades daquela tradição – por exemplo, com Śiva, Viṣṇu (ou uma de suas encarnações, como Kṛṣṇa ou Rāma), a Grande Deusa (Śakti), Gaṇeśa, etc. O bhākta dedica todos os momentos de sua vida a essa divindade. Assim, ele se purifica, deixa de acumular karman e atinge a libertação. Uma das mais antigas obras indianas que trata sobre o Bhakti-Yoga é a Bhagavad-Gītā, composta alguns séculos antes da era cristã.

 

 

MANTRA YOGA

A palavra mantra significa um instrumento destinado a atuar sobre a mente (manas). Na antiga tradição indiana, os mantras eram partes dos Vedas. Um hino inteiro dos Vedas não é chamado de mantra, mas versos isolados eram considerados mantras. Um dos exemplos mais importantes é a Gāyatrī ou Savitrī, que é uma única estrofe de um hino do Ṛg-Veda. Ao contrário dos hinos, que eram recitados inteiros, fazendo parte de rituais complicados, os mantras passaram a ser utilizados de forma isolada, sendo repetidos muitas vezes – um processo denominado japa. Essa repetição é feita geralmente em voz baixa, ou mentalmente. Muitas vezes se utiliza uma japa-mālā para contar as repetições. De acordo com a tradição indiana, os sons dos mantras são muito especiais, por isso sua repetição produz mudanças profundas na pessoa. O mantra induz estados alterados de consciência, desperta a sabedoria interna e pode contribuir para a libertação espiritual (mokṣa). O Mantra-Yoga se desenvolveu dentro do Tantra.

 

 

RĀJA-YOGA (DE PATAÑJALI)

Muitos textos indianos antigos se referem a práticas “mentais” ou internas, como as de retração dos sentidos (pratyāhāra), concentração (dhāraṇā), meditação (dhyāna) e união (samādhi). Patañjali, um sábio que viveu alguns séculos antes ou depois do início da era cristã, sistematizou um tipo de Yoga que dá atenção especialmente a essas práticas internas, combinando-as também com normas de ação (yama e niyama) e com postura e respiração. Embora o próprio Patañjali não tenha dada um nome especial ao seu método, ele foi depois denominado Rāja-Yoga, ou seja, o Yoga régio (ou real). O Yoga de Patañjali foi sistematizado em um texto chamado Yoga-Sūtra, escrito cerca de 2.000 anos atrás. Através desse tipo de Yoga a pessoa adquire a capacidade de entrar em estados alterados de consciência, ativando um órgão interno de sabedoria, a buddhi. Pela repetição dessas práticas, a vida do yogin vai se transformando, até que ele atinge um estado permanente de samadhi e a libertação (mokṣa).

Como o Yoga de Patañjali inclui oito técnicas ou tipos de práticas, é também chamado de aṣṭaṅga (oito membros), porém o moderno aṣṭaṅga-yoga, criado no século XX, é completamente diferente do Rāja-Yoga de Patañjali. 

 

 

TANTRA YOGA

Na tradição Hindu, o Tantra é um método espiritual de libertação que substitui os ensinamentos indianos antigos (a tradição dos Vedas) por outros diferentes, que se opõem às normas antigas (dharma). O Tantra se opõe ao ascetismo e propõe o uso de todas as coisas que possam atrair uma pessoa (incluindo sexo) como instrumentos para a libertação espiritual. Ele propõe obter libertação (mokṣa) junto com o desfrute (bhoga) de prazeres. Porém, Tantra não se reduz a sexo; é muito mais do que isso. De acordo com o Tantra, não há nada ruim ou errado no universo, apenas existe erro no interior da mente humana; a pessoa que superou a ignorância pode captar o aspecto perfeito e divino em cada coisa que existe, utilizando-a como um instrumento para entrar em contato com o infinito. O Tantra utiliza uma variedade de técnicas para que a pessoa se transforme. Elas incluem mantras, rituais de vários tipos, meditações utilizando imagens e diagramas místicos (yantras e maṇḍalas), introjeção de poderes divinos no próprio corpo (nyāsa), etc. Esse tipo de Yoga se desenvolveu sob influência do Budismo esotérico, a partir do início da era cristã.

 

 

LAYA YOGA

A palavra “laya” significa dissolução. O Laya-Yoga tradicional, que surgiu dentro do Tantra, utilizava poderosas técnicas para dissolver o ego ou individualidade, acalmando os processos mentais e induzindo estados alterados de consciência pela ativação da kuṇḍalinī e dos cakras. Muitos dos textos indianos antigos que falam sobre cakras são obras de Laya-Yoga. Atualmente, utiliza-se o nome “laya-yoga” para indicar técnicas simples de relaxamento, que não têm nenhuma relação com o Laya-Yoga indiano antigo. 

 

HAṬHA YOGA

O nome Haṭha-Yoga significa Yoga do esforço. É um dos métodos antigos de transformação espiritual, desenvolvido em torno do século X d.C. O yogin que segue esse método utiliza práticas bastante difíceis para transformar a estrutura interna ou sutil de seu corpo (o sistema de cakras e nāḍīs), procurando obter a libertação (mokṣa) em um corpo divino (divya-kāya) imortal. As principais técnicas características desse tipo de Yoga são as purificações físicas (ṣaṭkarmāṇi), as posturas (āsana), práticas de respiração (prāṇāyāma), técnicas de contrações e tampamentos (bandhas e mudrās) para controlar os poderes internos (kuṇḍalinī, rāsa, prāṇa) e outras práticas específicas para atingir o samādhi, como a concentração no som sutil (nāda). Essa modalidade de Yoga foi estruturada cerca de 1.000 anos atrás (é “recente”). O “haṭha-yoga contemporâneo”, tão popular no ocidente, foi criado cem anos atrás, baseando-se em posturas do Haṭha-Yoga, adicionando outras posturas e movimentos de ginástica e luta. Quase todos os outros aspectos do Haṭha-Yoga tradicional (incluindo sua finalidade espiritual) foram abandonados, no haṭha-yoga contemporâneo. 

 

 

YOGA MODERNO

O Yoga tradicional, de origem puramente indiana, se desenvolveu desde a Antiguidade até o século XVIII. A partir do século XIX, a influência ocidental na Índia (que era uma colônia da Inglaterra) levou a uma mistura de tendências e interpretações, associando o pensamento indiano antigo à religião cristã, à filosofia, medicina e ciência ocidentais, acabando por produzir novos tipos de Yoga que são bem diferentes dos tradicionais. 

O Yoga tradicional havia surgido dentro de uma cultura hinduísta, aceitando a existência de uma multiplicidade de seres divinos (devas e devīs) e adotando técnicas devocionais (religiosas) incompatíveis com o cristianismo. A base filosófica do Yoga tradicional era constituída por correntes de pensamento indianas antigas, como o Sāṅkhya, o Tantra e o Vedānta. O Haṭha-Yoga tradicional utilizava alguns conhecimentos médicos do Āyurveda, que é uma corrente médica tradicional indiana, totalmente diferente da medicina ocidental. O objetivo de todos os tipos de Yoga tradicionais indianos era a libertação espiritual (mokṣa), que não possui equivalente no pensamento ocidental. O Yoga moderno abandonou todo esse contexto antigo e procurou criar novas modalidades, que fossem facilmente aceitáveis pelos ocidentais.

Há dois grandes grupos de yogas modernos: (1) yoga postural; e (2) yoga espiritual. 

O yoga postural moderno foi criado na Índia, no final do século XIX e início do século XX, como uma combinação entre as aulas de ginástica que foram levadas pelos ingleses para a Índia, e algumas técnicas do Haṭha-Yoga indiano – principalmente posturas (āsanas) e práticas simples de prāṇāyāma. Esse tipo de yoga moderno, mais voltado para cuidados com o corpo, começou a ser trazido para o ocidente nas primeiras décadas do século XX, passando a ter maior influência na Europa e na América a partir da década de 1950. Em sua grande maioria, as academias de Yoga atuais ensinam apenas o yoga postural moderno. 

O yoga espiritual moderno, que mistura alguns aspectos da tradição indiana com influências ocidentais e de outros tipos, dá pouca importância às práticas físicas (corporais) e enfatiza métodos como mantras, devoção, estudo de filosofia, meditação etc. Às vezes, nem é utilizado o nome “yoga”, preferindo-se empregar palavras como “meditação”, para evitar confusões com o yoga postural. Várias dessas modalidades de yoga espiritual moderno distorcem totalmente a tradição indiana – por exemplo, os modernos ensinamentos “tântricos” que só falam a respeito de sexo. 

Na atualidade, tanto na Índia quanto no ocidente, praticamente só são encontradas as formas modernas de Yoga, que perderam contato com suas bases indianas antigas e que não têm mais o objetivo de uma transformação espiritual profunda, nem de levar à libertação espiritual (mokṣa) que era o fim último de todas as formas tradicionais de Yoga. No entanto, muitas escolas que ensinam o Yoga moderno afirmam estar seguindo uma tradição antiquíssima. Trata-se, no caso, de propaganda enganosa. Não é errado criar coisas novas – e o próprio Yoga tradicional indiano nunca foi estático, sempre sofreu transformações, mudanças, inovações. O errado é fingir que uma coisa nova é antiquíssima. 

 

 

GURUS

Algumas das modalidades antigas de Yoga eram ensinadas por gurus – pessoas que haviam atingido a libertação espiritual (mokṣa) ou que estavam muito próximos dela e que eram capazes de conduzir outras pessoas à libertação. As correntes tradicionais de Yoga que falam muito sobre a necessidade de um guru são, de um modo geral, as que surgiram do Tantra – como o Mantra-Yoga, o Laya-Yoga, o Haṭha-Yoga. Outras correntes, como o Bhakti-Yoga, o Karma-Yoga e o Jñāna-Yoga, não estabelecem a necessidade de um guru. O Rāja-Yoga de Patañjali se refere ao guru, mas nesse caso não se trata de uma pessoa e sim de um ser divino, Īśvara (o Soberano do universo), que pode instruir diretamente qualquer yogin ou yoginī, sem necessidade de um intermediário humano. 

Hoje em dia, há muitos falsos gurus atraindo adeptos, além de muitas pessoas buscando desesperadamente por um guru, como se não fosse possível evoluir espiritualmente sem isso. Essa atitude é perigosa, pois as pessoas crédulas podem ser facilmente enganadas e exploradas por aproveitadores sem escrúpulos. 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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