Sânscrito

 
 
 
 
 

INTRODUÇÃO GERAL

O sânscrito (saṃskṛtam) é um antigo idioma indiano, que atualmente é compreendido apenas por uma pequena parte da população da Índia (e também por especialistas de outros países). Não se deve pensar que qualquer indiano que se encontra em uma rua de Delhi ou qualquer outra cidade da Índia é capaz de ler ou falar sânscrito - assim como não se deve imaginar que qualquer morador atual de Roma é capaz de ler ou falar latim. O sânscrito NUNCA foi falado por toda a população indiana, pois desde as épocas mais remotas conhecidas, sempre houve uma pluralidade de idiomas no subcontinente indiano. Desde muitos séculos antes da era cristã, há dois grandes grupos linguísticos principais na Índia: os idiomas indo-arianos e os idiomas dravídicos. Os idiomas indo-arianos, que são descendentes do sânscrito, predominam atualmente no norte da Índia.

 

Os dravídicos, que não possuem parentesco com o sânscrito, predominam atualmente no sul da Índia. O idioma indo-ariano mais antigo é chamado "vêdico", porque é a língua em que foram compostos os Vedas. Esse antigo idioma tem semelhanças com o "avéstico", que é a língua mais antiga conhecida que existiu na antiga Pérsia. O vêdico era falado por um povo que ocupava uma pequena região no noroeste do subcontinente indiano, durante um período entre 2.500 e 1.500 antes da era cristã. Antigamente se acreditava que o vêdico havia sido introduzido na Índia pelo povo ariano, que teria invadido a região nesse período.

 

No entanto, atualmente essa "invasão ariana" é considerada um mito. Ao longo dos séculos, o vêdico foi se transformando, tanto por influência de outros idiomas da região quanto por sua própria dinâmica - todas as línguas tendem a mudar com o tempo. Em torno de 1.000 a.C. ele já havia mudado muito e aproximadamente em 500 a.C. ele havia sido substituído por aquilo que é chamado de "sânscrito clássico", que foi descrito pelo gramático Pāṇini. Ao mesmo tempo, o sânscrito coexistia com outros idiomas. Alguns deles, aparentados ao sânscrito porém de uso mais popular, eram chamados de "prácritos".

 

Esse grupo inclui o idioma "pali" (Pāli), que é a língua na qual foram registrados os mais antigos textos budistas. Há dúvidas, no entanto, sobre se o Buddha histórico (Gautama) falava pali, ou algum outro idioma antigo semelhante a este. Atualmente, na Índia, a língua mais falada é o hindi, que tem relação com o sânscrito mas é tão diferente dele quanto o italiano difere do latim. Outros idiomas do subcontinente indiano, tão antigos quanto o vêdico, possuíam vocabulário, fonética e gramática muito diferentes, constituindo o grupo dravídico. As principais línguas dravídicas existentes atualmente são: tâmil, telugu, malaiala e canará (kannada). Muitas obras indianas antigas sobre Yoga, filosofia e espiritualidade foram escritas em sânscrito; mas outras obras importantes foram escritas em outras línguas. 

 

IMPORTÂNCIA DO SÂNSCRITO

As pessoas que se interessam por Yoga e pelo pensamento indiano precisam ter algumas noções sobre sânscrito, por vários motivos. 

(1) Vocabulário do sânscrito: Há muitos conceitos especiais do pensamento indiano que não possuem uma tradução para o português nem para outros idiomas ocidentais, simplesmente porque são ideias que nunca existiram em outras culturas. Não existe uma tradução adequada para a palavra "karman", por exemplo. É melhor utilizar o próprio termo sânscrito e explicar o seu significado do que tentar traduzi-lo. Da mesma forma que nós nos acostumamos com palavras de outros idiomas, como "mouse" e "pizza", sem tentar substituí-las por termos do português, é melhor adotar palavras do sânscrito como "yoga", "dharma", "ātman", "āsana" e "prāṇāyāma" (e muitas outras) aprendendo o que significam mas sem tentar substuí-las por palavras em português.

(2) Pronúncia do sânscrito: Quando cantamos mantras em sânscrito, ou falamos termos do sânscrito (como "yoga"), devemos utilizar a pronúncia correta original - assim como ocorre quando utilizamos palavras de outros idiomas. Não tem sentido pronunciarmos a palavra italiana "gnocchi" como se fosse "guinôxi"; nós aprendemos que ela é pronunciada como se fosse "nhóqui". Da mesma forma, devemos aprender que o termo sânscrito "āsana" não é pronunciado como "azâna" e sim como se fosse "áássânâ". Algumas palavras sânscritas são fáceis de serem pronunciadas; outras (como, por exemplo, "prāṇa") são bastante difíceis, porque podem conter sons que não existem em português. 

(3) Gênero das palavras: No português, as palavras terminadas com "a" são femininas. No sânscrito, as palavras terminadas com "a" curto (pronunciado "â") são masculinas ou neutras e as que terminam com "a" longo e agudo (representado por "ā") são femininas. A palavra sânscrita "yoga" é masculina, por isso devemos dizer "o yoga" e não "a yoga". A palavra sânscrita "āsana" é neutra, por isso dizemos "o āsana" e não "a āsana". A palavra sânscrita "mudrā" que é pronunciada como se fosse "mudráá" e que significa certos gestos especiais feitos com as mãos, é feminina, por isso devemos dizer  "a mudrā" e não "o mudrā" (e, pior ainda, "o múdra"). 

(4) Escrita do sânscrito: Mesmo se você apenas quer conhecer um vocabulário básico do sânscrito, precisa aprender o modo correto de escrever as palavras, pois a escrita corresponde à pronúncia, e vice-versa. Não é necessário aprender a escrita devanāgarī, que utiliza sinais completamente diferentes dos nossos (por exemplo, योग = yoga). Mas é importante aprender a transliteração do sânscrito, ou seja, o modo correto de escrever as palavras sânscritas utilizando nosso alfabeto romano, com alguns sinais especiais (marcas diacríticas). A norma internacional de transliteração do sânscrito é chamada IAST (International Alphabet of Sanskrit Transliteration). Assim, você poderá escrever e pronunciar corretamente os nomes de Śiva, Lakṣmī e Gaṇeśa, por exemplo.  

 

QUEM FALA SÂNSCRITO?

Alguns séculos antes da era cristã, havia uma boa parte da população indiana que falava sânscrito (embora houvesse, paralelamente, muitas outras línguas no subcontinente indiano). Com o passar dos séculos, ele se tornou um idioma principalmente literário, ou seja, era utilizado para se escrever, mas não nas conversas comuns. Há um paralelo entre o que ocorreu com o sânscrito e aquilo que sucedeu no caso do latim. Na Antiguidade, o latim era falado por grande parte da população do Império Romano. Porém, ao longo da Idade Média, foi se tornando apenas um idioma literário, utilizado para escrever. Na Europa, até o século XIX, as pessoas mais cultas (que haviam estudado em universidades) sabiam ler, escrever e até falar em latim. Atualmente, o latim é pouco usado. Da mesma forma, o sânscrito foi se tornando uma língua conhecida por uma proporção cada vez menor da população indiana. No entanto, o sânscrito tem ainda grande importância, porque existe uma enorme quantidade de textos antigos escritos nesse idioma e que nunca foram traduzidos. 

Nas últimas décadas, o governo indiano tem estimulado o estudo do sânscrito tanto por adultos quanto pelas crianças, nas escolas. Há pequenas vilas indianas (Mattur, Jhiri, Sasana, Baghuar, Ganoda, Mohar, Hosahalli) que decidiram adotar o sânscrito como língua oficial e onde tanto os adultos quanto as crianças lêem, escrevem e conversam fluentemente nesse idioma. O sânscrito não pode ser considerado uma língua morta. Desde a independência da Índia foram escritas mais de 3.000 obras nesse idioma. Atualmente há cerca de 90 jornais e revistas publicados em sânscrito, na Índia; e programas de rádio e televisão nessa língua. 

A população atual da Índia é de aproximadamente um bilhão e duzentos milhões de pessoas. No recenseamento realizado em 2011, 24.800 pessoas declararam que o sânscrito era seu idioma materno (ou seja, a língua aprendida quando crianças). Porém, um total de aproximadamente seis milhões de indianos (quase 0,5% da população) declarou ter conhecimento do sânscrito como segunda ou terceira língua. Não está claro, no entanto, que proporção desses seis milhões de pessoas é capaz de ler e escrever o sânscrito corretamente. Podemos comparar a situação com a do Brasil, onde um grande número de pessoas declara que o inglês e o espanhol são sua segunda ou terceira língua, mas essas pessoas geralmente possuem um conhecimento muito pobre desses idiomas. 

 

DIVERSOS TIPOS DE SÂNSCRITO

Não existe apenas um tipo de sânscrito: existem vários. O tipo mais antigo de sânscrito é chamado "vêdico". É a língua utilizada nas obras indianas mais antigas que conhecemos, os Vedas. O vêdico era falado por um povo que ocupava uma pequena região no noroeste do subcontinente indiano, durante um período entre 2.500 e 1.500 antes da era cristã. O vêdico não era um idioma escrito, pois nessa época não havia ainda uma escrita no subcontinente indiano. Os Vedas eram transmitidos oralmente, ou seja, eram memorizados e transmitidos de uma geração para outra recitando seu conteúdo. Os Vedas só foram registrados sob forma escrita em torno de 1.000 d.C.

Embora os hinos dos Vedas tenham sido conservados pelo processo de transmissão oral, a língua utilizada pelas pessoas não ficou estática. Ao longo dos séculos, tanto por influência do contato com outros idiomas como também pelo simples decorrer de um longo tempo, o vêdico foi sofrendo mudanças. Essas mudanças não são superficiais, são profundas. A estrutura gramatical dos verbos se alterou. Alguns sons que existiam no vêdico deixaram de ser utilizados e foram substituídos por outros. O vocabulário mudou. A sociedade e toda sua cultura estavam se transformando.

É possível perceber a mudança desse idioma estudando obras que foram compostas depois dos hinos dos Vedas (e que também foram transmitidas oralmente durante séculos). Há dois tipos de obras chamadas Brāhmaṇas e Āraṇyakas que se desenvolveram dentro da tradição vêdica mas que se situam em uma outra fase histórica (talvez entre 1.800 e 800 a.C.) e utilizam uma linguagem diferente. As Upaniṣads, que são outro tipo de obras, representam ainda outra fase; as mais antigas delas podem ter sido compostas entre 1.000 e 800 a.C. e outras Upaniṣads foram produzidas nos séculos seguintes. O idioma das Upaniṣads já não é mais o vêdico, é o sânscrito "clássico".

Os dois épicos indianos, Mahābhārata e Rāmāyana, que começaram a ser compostos vários séculos antes da era cristã, representam um terceiro tipo de sânscrito, chamado "épico", que tem alguns aspectos semelhantes ao vêdico e outros iguais ao do sânscrito clássico. Provavelmente as partes mais antigas dessas duas obras remontam ao período em torno de 1.000 a.C., embora a versão que chegou até nós seja bem mais recente. 

Atualmente, quando falamos sobre o sânscrito estamos geralmente nos referindo à versão dessa linguagem que foi sistematizada pelo gramático Pāṇini, em torno de 500 a.C. Depois de Pāṇini, o sânscrito ficou bastante estável, tanto pela existência de uma gramática bem estruturada, quanto pelo desenvolvimento da escrita no subcontinente indiano. No entanto, o sânscrito foi se tornando uma língua empregada apenas por uma elite, deixando gradualmente de ser falada pela população em geral. 

 

PRONÚNCIA DO SÂNSCRITO

Cada língua possui sons específicos, que podem não existir em outros idiomas. Quando um brasileiro aprende inglês, ele precisa se familiarizar com sons diferentes como, por exemplo, o "th" de palavras como "they", "that" etc. Esse som do "th" inglês não existe em português. Por outro lado, há sons do português, como o "lh" de "palha" e o "nh" de "ninho", que não existem em inglês. Mesmo línguas que são bastante semelhantes, como o espanhol e o português, possuem diferenças fonéticas profundas, tornando difícil o aprendizado de suas pronúncias pelas pessoas de outros países. Até mesmo no Brasil há diferenças regionais de pronúncia de vários sons, como os do "r" e do "s".

No caso do sânscrito ocorre algo do mesmo tipo. Há sons utilizados nessa língua que não existem em português, incluindo uma vogal representada pelo símbolo "ṛ". Não existe no sânscrito o som do nosso "j" (como em "jaca"), mas um som semelhante a esse, que poderíamos representar por "dj" (como no nome próprio Djalma). O som do português que representamos por "ch" ou "x" existe também no sânscrito e é representado pelo símbolo "ś", mas há outros sons um pouco diferentes que não existem no português, um deles que poderíamos representar por "tch" (como na palavra sânscrita "cakra") e outro som cuja pronúncia é extremamente difícil para nós, representado pelo símbolo "ṣ" e que é como nosso "ch", porém com a ponta da língua encostada no céu da boca (som palatal, ou retroflexo). 

Embora se costume afirmar que existem cinco vogais no português, o número de sons vogais de nosso idioma é bem maior, porque as vogais podem ter som agudo (como "á"), grave (como "â") e nasal (como "ã"). Nossas vogais "i" e "u" não possuem nunca som grave, são sempre agudas ou nasais, mas as outras vogais têm as três variações. Assim, temos no português 13 sons diferentes correspondentes às vogais. Essa variedade de sons das vogais do português, da qual nós nem nos damos conta, torna muito difícil, para pessoas que falam outros idiomas, compreender e pronunciar a nossa língua.

No sânscrito existe um "a" agudo e longo, representado por "ā"; um "a" grave e curto, semelhante ao nosso "â"; um "i" curto e outro longo ("ī"); um "u" curto e outro longo ("ū"), a vogal associada ao som "r", semelhante ao som que utilizamos ao pronunciar "arara" (mas sem o "a"), que pode ser curta ("ṛ") ou longa ("ṝ"); e uma vogal associada ao som "l", quase impossível de ser pronunciada por nós, representada por "ḷ". Existe uma vogal "e" que é longa e sempre tem um som grave (como nosso "ê") e uma vogal "o" que também é longa e tem sempre um som grave (como nosso "ô"). Não existem os sons "ó" ou "é". Todas as vogais do sânscrito podem também ter som nasalizado, como no português ("ã" etc.), mas representadas de um modo diferente ("aṁ" etc). 

Existem, ao todo, 49 diferentes fonemas básicos no sânscrito. O número de consoantes é muito maior do que em português, embora existam sons de consoantes do português que não existem em sânscrito (como os sons de "ja" e "za"). Muitos sons consonantais do sânscrito possuem correspondentes no português, como "ga", "ma", "ta", "pa"; outros são diferentes. Alguns dos sons consonantais do sânscrito não apresentam uma grande dificuldade de serem pronunciados por nós; outros são muito difíceis e exigem um longo treino. 

 
 
 

ESCRITA DO SÂNSCRITO

Existem idiomas que são escritos com caracteres especiais. A língua russa, por exemplo, é escrita com os caracteres cirílicos. A língua grega é escrita com sinais especiais. Muitos idiomas modernos (incluindo o português) são escritos com o alfabeto romano. Há línguas nas quais os caracteres representam sons (como no português) e outras em que eles representam ideias e não sons (como os ideogramas do chinês antigo). 

O sânscrito é geralmente escrito com sinais especiais, a escrita chamada "devanāgarī" (por exemplo, योग = yoga). Mas deve-se compreender a diferença entre uma língua e sua escrita. O sânscrito, como língua falada, é muito mais antigo e existiu durante dois mil anos sem que houvesse qualquer registro escrito desse idioma. A escrita devanāgarī, por outro lado, é relativamente recente, possui apenas cerca de mil anos de idade. Antes da devanāgarī existiram outras escritas, na Índia. Assim como o alfabeto romano pode ser usado para escrever diversos idiomas (como o inglês e o francês), os caracteres devanāgarī podem ser utilizados para representar outras línguas, como o hindi. E mesmo atualmente é possível escrever o sânscrito com outros tipos de caracteres, como a escrita indiana gujarātī; e pode ser representado com o alfabeto romano, adicionando-se alguns sinais especiais. 

As escritas indianas tradicionais parecem ter surgido alguns séculos antes da era cristã por influência da introdução da escrita persa, no noroeste indiano. Em torno do século IV a.C. já existia uma escrita indiana própria, chamada "brahmī". Foi a partir dela que foram se desenvolvendo muitos outros tipos de escritas, incluindo a nāgarī (em torno de 700 d.C. e a devanāgarī, que adquiriu sua forma atual em torno de 1.000 d.C. Os idiomas dravídicos do sul da Índia (como o tâmil) utilizam outros tipos de sinais, bem diferentes, mas que também se originaram da escrita brahmī. 

A escrita devanāgarī é regular e fonética, mas é bastante complicada, pois são formados símbolos especiais para representar a fusão de consoantes e vogais. Assim, embora existam apenas 50 sinais básicos na escrita devanāgarī, há na prática centenas de sinais compostos diferentes para representar as sílabas.

É possível representar de forma exata toda a variedade de sons do sânscrito utilizando o alfabeto romano, com adição de certos sinais chamados "diacríticos". O sistema mais comum utilizado em livros ocidentais é o IAST (International Alphabet of Sanskrit Transliteration), criado no final do século XIX. O IAST utiliza as seguintes letras romanas: a, b, c, d, e (não utiliza f), g, h, i, j, k, l, m, n, o, p (não utiliza q), r, s, t, u, v (não utiliza w nem x), y (não utiliza z) e também as letras especiais ā, ī, ū, ṛ, ṝ, ḷ, ṅ, ñ, ṭ, ḍ, ṇ, ś, ṣ, ḥ, ṁ. Cada sinal básico da escrita devanāgarī pode ser representado por uma dessas letras ou, algumas vezes, por um conjunto de duas letras (por exemplo: gh, ṭh etc.). Sabendo-se como uma palavra em sânscrito é escrita em devanāgarī pode-se passar automaticamente para sua representação em IAST, e vice-versa. Sabendo-se como uma palavra em sânscrito é escrita em devanāgarī ou IAST pode-se pronunciá-la de forma exata, e vice-versa. 

Os autores de língua inglesa muitas vezes escrevem as palavras do sânscrito utilizando combinações de letras do alfabeto romano que facilitam sua leitura por parte dos leitores de língua inglesa. Escrevem, por exemplo, palavras com "oo" para indicar o som de um "ū" longo e "ee" para indicar o som de um "ī" longo. Utilizam também o "sh" para representar indiferentemente as consoantes "ś" e "ṣ", que são bem diferentes entre si. Não devemos imitar esse modo de escrita, que não respeita os padrões internacionais.

 

VOCABULÁRIO DO SÂNSCRITO

Adquirir um bom vocabulário é parte importante do aprendizado de um novo idioma. O vocabulário depende de seus objetivos, não é igual para todas as pessoas. Se você quiser aprender alemão para estudar livros sobre matemática, precisará adquirir um vocabulário voltado para isso e provavelmente não precisará aprender nomes de flores, de comidas, nem aprender a dizer "bom dia" em alemão. Se a pessoa já sabe matemática, ela precisará saber a correspondência entre os termos técnicos em português e em alemão, mas não precisará aprender novos conceitos.

 

No caso do sânscrito, a situação é diferente. Em geral, as pessoas querem aprender um pouco de sânscrito por causa de seu interesse pelo pensamento indiano ou pelo yoga. Porém, não se trata de aprender as palavras em sânscrito que significam a mesma coisa que os termos já conhecidos em português. Aprender a terminologia indiana sobre filosofia, religião e espiritualidade é penetrar em um mundo novo, que não pode ser descrito adequadamente no nosso idioma, porque o vocabulário do português (e de outros idiomas ocidentais) só é capaz de descrever aquilo que faz parte de nosso mundo cultural, não abrange os conceitos e vivências do pensamento indiano. Vamos mostrar um exemplo. A palavra sânscrita "ātman" é extremamente importante para compreendermos o pensamento indiano.

 

Qual a palavra em português que corresponde a ela? Nenhuma palavra. Há pessoas que traduzem "ātman" por alma ou espírito, mas o significado de ātman é bem diferente disso. Trata-se de um conceito novo, que não existe no pensamento ocidental e que precisa ser aprendido gradualmente. O ātman, na filosofia indiana, é o núcleo ou centro do ser humano, que não é nossa mente, não é a nossa inteligência ou pensamento. É algo que não tem nome, em português. Além de ser o aspecto mais profundo do ser humano, o ātman tem também um significado cósmico, pois ele é ao mesmo tempo algo infinito, que é a base de todo o universo, de toda a realidade. Não, não tente traduzir ātman. Tente entender o que isso significa, sem traduzir.

Vamos fazer uma comparação. Se uma pessoa do Japão quiser aprender o vocabulário brasileiro para descrever alimentos, vão surgir muitas palavras que não possuem correspondente no idioma japonês. Qual a palavra japonesa para feijoada, ou para caipirinha? Não existem. Para saber o que é uma feijoada ou uma caipirinha, essa pessoa precisará ver, sentir o aroma e o sabor dessas coisas desconhecidas. Então, não tentará mais fazer uma tradução, simplesmente utilizará o nome em português e saberá o que ele significa.

Da mesma forma, aprender o vocabulário do sânscrito é muito mais do que usar um dicionário ou construir uma tabela de correspondências entre o português e o sânscrito. É tentar captar o significado de termos que não têm tradução, que só adquirem um significado claro quando você tem uma vivência pessoal do que eles significam. 

 

GRAMÁTICA DO SÂNSCRITO

Para poder compreender um texto em sânscrito é necessário não apenas conhecer sua escrita e adquirir um grande vocabulário, mas também aprender sua gramática. Os dois aspectos mais complexos da gramática sânscrita são (1) a declinação dos substantivos e adjetivos e (2) a conjugação dos verbos. As regras de fusão de palavras (sandhi) também são bastante complexas.

(1) Declinação. Os substantivos e adjetivos do sânscrito podem ser masculinos, femininos ou neutros; e podem ser representados no singular, no plural e no "dual", que é utilizado quando há um par de pessoas ou objetos. Cada substantivo ou adjetivo adquire uma terminação diferente que depende de seu gênero (masculino, feminino ou neutro), número (singular, dual, plural) e caso gramatical (função da palavra na frase). Há oito casos, no sânscrito (o latim, por exemplo, tem apenas seis casos), cujos significados são aproximadamente os seguintes: nominativo (sujeito de uma sentença), vocativo (chamado ou interpelação), acusativo (objeto direto em uma frase), instrumental (aquilo que é utilizado para produzir algo), dativo (objeto indireto, objetivo), ablativo (origem, ponto de partida), genitivo (posse) e locativo (localização). Levando em conta os três números (singular, dual e plural), há 24 terminações que cada substantivo ou adjetivo do sânscrito pode adquirir (embora algumas delas sejam repetidas). 

(2) Conjugação. Os verbos do sânscrito possuem alguns tempos verbais que não têm correspondente em português. Os tempos dos verbos são: presente, pretérito imperfeito, perfeito, aoristo, futuro; com os modos indicativo, optativo e imperativo; e com as vozes verbais ativa, passiva ou média. Assim como ocorre no estudo do alemão ou do francês, o aprendizado da conjugação verbal do sânscrito é bastante difícil. 

(3) Fusão ou sandhi. Há também outro aspecto especial do sânscrito que dificulta seu domínio. São usadas muitas palavras compostas e, quando duas palavras se fundem, a sílaba final da primeira e o início da segunda palavra sofrem mudanças. Além disso, em uma frase, também ocorrem modificações semelhantes entre as palavras contíguas. Assim, para compreender uma frase, é necessário primeiramente decompô-la em palavras desfazendo as mudanças que haviam sido realizadas na sua fusão. 

SHRI YOGA DEVI

  • Preto Ícone Instagram
  • Preto Ícone Facebook
  • Preto Ícone YouTube
Cadastre-se para receber novidades!
430485-PE9ZCG-718.png

Serra da Mantiqueira - Caixa Postal 188

CEP 37640-970 Extrema, MG