ÍNDIA

O QUE É A ÍNDIA

A Índia atual (Bhārat, em Hindi) é um país do Sul da Ásia, com cerca de 1,2 bilhões de pessoas. Ela passou por muitas fases históricas, só se tornando um país politicamente unificado e independente em 1947. Antes disso, foi invadida por portugueses, holandeses e franceses, tornando-se depois uma colônia da Inglaterra, primeiramente sob o controle da Companhia das Índias britânica (desde meados do século XVIII) e depois, a partir de 1858, sob o comando direto da Grã Bretanha. A região geográfica que costumamos chamar de Índia variou bastante de tamanho e, por ocasião da independência, em 1947, foi dividida em dois países – a Índia propriamente dita e o Paquistão. 

Quando falamos sobre a antiga cultura indiana, estamos nos referindo a uma ampla região geográfica que não tinha unidade política nem governo centralizado. Às vezes se utilizam os nomes "Sul da Ásia" e "subcontinente indiano" para indicar essa região que era delimitada por barreiras geográficas: cordilheiras de montanha ao leste, ao norte e ao oeste. Esses limites não eram muito bem definidos, não existia uma fronteira clara onde terminava a "Índia" antiga e começavam outras regiões. Devemos tomar muito cuidado para não aplicar ao passado as distinções atuais entre os diversos países vizinhos.

 

AS MUITAS CULTURAS INDIANAS

Desde os tempos mais antigos conhecidos, até hoje, o subcontinente indiano contém uma diversidade de tipos étnicos, com povos que falam diferentes idiomas e seguem diferentes tradições culturais e religiosas. Por isso, é quase impossível afirmar qualquer coisa genérica que se aplique a todos os indianos atuais ou antigos. Em vez de falarmos sobre "a filosofia indiana", por exemplo, é melhor pensar sobre uma pluralidade de filosofias. Também não se deve imaginar que a Índia atual seja semelhante ao que existia no subcontinente indiano há dois mil anos, ou quatro mil anos atrás. O idioma, o pensamento, as crenças – tudo isso foi mudando com o passar do tempo. Além disso, há grande diferença entre os idiomas e as culturas predominantes na região Sul da Índia e na região Norte ou Leste. 

Para quem começa a estudar a Índia, isso dificulta muito a compreensão, porque nada é simples, tudo é complexo e variado. Porém, à medida que nos familiarizamos com essa diversidade, vemos que isso enriquece nosso conhecimento. 

 

INDIANO OU HINDU

É muito comum confundir "indiano" com "hindu", mas são coisas diferentes. "Indiano" é um adjetivo que se refere à Índia. "Hindu" é um adjetivo que se refere a uma religião específica, o Hinduísmo. Nem todo indiano é hindu. Há indianos que seguem diferentes religiões: cristãos, muçulmanos, sikhs, budistas, jainas... E existem hindus (isto é, seguidores do Hinduísmo) que não são indianos nem descendentes de indianos. São hindus por causa de sua crença. No Nepal, por exemplo, a maioria da população é hindu, mas não são indianos. Atualmente, cerca de 80% dos indianos são hindus (cerca de um bilhão de pessoas) e 14% são muçulmanos. A coexistência entre as várias religiões nem sempre é pacífica, ocorrem com frequência conflitos de natureza religiosa.

 

HINDUÍSMO

O Hinduísmo é a principal religião existente atualmente na Índia, embora existam várias outras. O Hinduísmo não é uma religião institucionalizada, com uma hierarquia de chefes religiosos. Também não há uma unidade de crença entre as pessoas que se consideram hindus. O Hinduísmo é um desenvolvimento relativamente recente (surgido no início da era cristã) de uma corrente indiana mais antiga, que se originou com os Vedas e depois gerou o Brahmanismo. Os hindus (seguidores do Hinduísmo) aceitam os Vedas como uma revelação sagrada, que não pode ser questionada. Acreditam que cada pessoa passa por uma sucessão de vidas, produzidas pelos resíduos de ações passadas (karman). Esse ciclo de renascimentos (saṁsāra) pode ser rompido através de uma transformação espiritual, mokṣa, que é o objetivo dos yogas tradicionais indianos. No Hinduísmo há uma grande variedade de seres divinos masculinos e femininos (devas e devīs) e um ser absoluto, neutro (nem masculino nem feminino), que não é um deva nem uma devī, chamado Brahman. Há diversas seitas dentro do Hinduísmo, que se diferenciam pelo ser divino que é considerado mais importante. A corrente Vaiṣṇava aceita Viṣṇu como o principal deva; a linha Śaiva, pelo contrário, considera que Śiva é o principal deva. Além dessas duas seitas, que são as principais dentro do Hinduísmo hoje em dia, há muitas outras, incluindo a Śākta que considera a Śakti (a Poderosa, a Grande Deusa) como sendo superior a todos os devas. 

 

TRADIÇÃO E MODERNIDADE

O subcontinente indiano nunca foi uma civilização unificada e fechada. Sempre houve diversidade étnica, cultural e linguística; e os povos indianos tiveram interação com povos de outras culturas vizinhas, além de sofrer invasões por parte de persas (século VI a.C.), hunos (séc. V d.C.), macedônios (séc. IV a.C.), árabes e outros povos muçulmanos (sécs. VIII e X) e, depois, de diversos países europeus: portugueses (séc. XV), holandeses, franceses e ingleses. As invasões e o comércio com povos vizinhos sempre levaram a um intercâmbio cultural. Porém, o processo mais radical de aculturação no subcontinente indiano ocorreu a partir da colonização britânica em meados do século XVIII. Eles tentaram impor seu idioma, sua religião cristã, sua filosofia, sua medicina, ciência, método de educação e outros aspectos culturais e sociais, influenciando especialmente as classes sociais e econômicas superiores. Até o século XVIII, apesar de terem ocorrido influências externas, podemos considerar que existia uma cultura indiana tradicional, que ia se transformando porém mantendo uma relativa coerência e unidade. A partir do final do século XVIII começa a se formar uma cultura indiana moderna, fortemente influenciada pelo pensamento ocidental introduzido pelos ingleses. O pensamento indiano que chegou ao mundo ocidental, depois disso, já não era parte da cultura tradicional, pois continha elementos modernos da cultura ocidental. O yoga indiano moderno, por exemplo, criado a partir do fim do século XIX e início do século XX, tem forte influência do pensamento ocidental. Assim, para todos os aspectos da cultura indiana, é conveniente distinguir entre a “tradição” (antes da influência europeia) e a “modernidade” (com forte influência europeia e, depois, norte-americana).

 

PERÍODOS HISTÓRICOS DA ÍNDIA

Os historiadores costumam dividir a história da Índia em várias fases ou períodos. Há uma grande incerteza sobre a datação dos acontecimentos indianos, pela falta de registros históricos antigos. Por isso, as datas indicadas a seguir são todas aproximadas.

30.000 a.C. até 10.000 a.C. – vestígios humanos, artefatos paleolíticos e pinturas em cavernas (Bhimbetka); as pessoas viviam da caça e coleta de vegetais (não eram cultivados)

11.000 a.C. até 7.000 a.C. – cultura mesolítica, construção de habitações, pequenos agrupamentos, instrumentos de pedra e osso

7.000 a.C. até 5.000 a.C. – cultura neolítica, vilas organizadas, como em Mehrgarh, com criação de animais (carneiros, cabras, gado) e agricultura (trigo, centeio)

5.000 a.C. até 3.000 a.C. – vestígios mais antigos de cerâmica; instrumentos de cobre

3.300-1.900 a.C. – civilização do Vale do rio Indus, no leste do subcontinente indiano, com um conjunto de cidades planejadas (Mohenjo-Daro, Harappa, Dholavira, Kalibangan etc.); vestígios de uma escrita que depois desapareceu; agricultura e criação de animais; metalurgia (bronze, chumbo, estanho)

2.500-1.500 a.C. – composição dos hinos dos Vedas, no noroeste do subcontinente indiano (região dos sete rios)

1.800-800 a.C. – composição de outros textos sagrados: Brāhmaṇas e Āraṇyakas; desenvolvimento do Brāhmaṇismo, que dá grande importância a rituais, às castas sociais e a regras éticas rígidas (dharma)

1.000 a.C. – primeiros artefatos de ferro; aumento da agricultura no Vale do Ganges; início do cultivo do arroz; aumento expressivo da população e formação de cidades

900-800 a.C. – composição das mais antigas Upaniṣads (porém, há Upaniṣads que foram escritas muitos séculos depois disso)

700 a.C. – pequenas cidades independentes começam a se unir formando 16 grandes reinos, oligarquias e repúblicas (Mahājanapadas)

600 a.C. – surgimento de muitas novas doutrinas filosóficas e religiosas, opostas ao Brāhmaṇismo, especialmente na parte leste do subcontinente indiano

séc. VI a.C. – nascimento de Mahāvīra, fundador histórico do Jainismo; nascimento de Siddhārtha Gautama, fundador do Budismo; início da difusão de suas doutrinas

538 a.C. – o imperador persa Ciro, o Grande, invade o noroeste da Índia; introdução de moedas e escrita no subcontinente indiano

séc. V a.C. – Pāṇini compõe a obra Aṣṭādhyāyī, que descreve a gramática do sânscrito clássico; grande parte do Mahābhārata já havia sido composta 

400 a 300 a.C. – império dos Nandas, que chega a dominar cerca de 40% do subcontinente indiano

séc. IV a.C. – o domínio persa no noroeste da Índia é conquistado por Alexandre, o Grande, que estabelece um domínio macedônio

324-187 a.C. – primeiro grande império indiano (império Maurya), iniciado pelo rei Candragupta Maurya

séc. III a.C. – o rei Aśoka, da dinastia Maurya, estabelece o mais vasto império indiano, que chega a dominar cerca de 80% do subcontinente indiano, e divulga o Budismo

200 a.C. até 300 d.C. – período político intermediário, sem nenhum grande império; dinastias dos Shatavahanas e dos Kushans; forte desenvolvimento literário, artístico e filosófico; comércio de longa distância, com China e Roma; composição da Bhagavad-Gītā e do Yoga-Sūtra de Patañjali; composição dos Purāṇas mais antigos; surgimento de templos e esculturas, desenvolvimento de cultos devocionais (Bhakti-Yoga); redação de textos em outros idiomas: Prākṛta, Pāḷi, Tamil

300 até 600 d.C. – dinastia Gupta, que chega a dominar cerca de 60% do território do subcontinente indiano; dinastia Harsha; composição dos textos tântricos mais antigos conhecidos; fortalecimento dos cultos devocionais de Viṣṇu, Śiva e Śakti; Purāṇas descrevem vários tipos de Yoga; textos tradicionais da medicina tradicional indiana, o Āyuveda

600 até 1100 d.C. – fragmentação política, com dinastias locais; a expansão do Islamismo chega ao noroeste do subcontinente indiano; enfraquecimento do Budismo e do Jainismo na Índia; transmissão de religiões indianas para o sudeste asiático; desenvolvimento do Advaita Vedānta e da filosofia Śaiva; surgimento do Haṭha-Yoga 

1100 até 1500 – fortalecimento gradual do Islamismo; o sultanato de Delhi, estabelecido em 1206, chega depois a controlar cerca de 70% do território do subcontinente indiano em torno de 1300, mas depois se enfraquece; invasões de mongóis no século XIII; desenvolvimento de outras vertentes do Vedānta; corrente devocional Vīraśaiva; fundação do Sikhismo, por Guru Nanak; chegada dos portugueses à Índia

1500 até 1750 – período de invasão do subcontinente indiano por descendentes de mongóis que havia aderido à cultura da Pérsia; derrota do sultanato de Delhi e início do império Mughal, que chegou a dominar entre 80 e 90% do território do subcontinente indiano no século XVII; estabelecimento de colônias holandesa, francesa e inglesa; início do império Maratha, que no final do período derrotou o império Mughal; expansão do comércio com outras regiões, incluindo Europa; influência da cultura persa; prosperidade econômica, crescimento de cidades que chegam a atingir mais de 500.000 habitantes; surgimento dos idiomas Hindi e Urdu; gradual expansão da East India Company, britânica; em meados do século XVIII, os ingleses já controlavam grande parte da Índia; elaboração das Upaniṣads do Yoga e de muitos textos importantes do Haṭha-Yoga

1750 até 1947 – domínio da Índia pelos ingleses; transferência do poder, da East India Company para a coroa britânica; em torno de 1800 são feitas as primeiras traduções de textos indianos importantes (Código de Manu, Bhagavad-Gītā, Upaniṣads); os europeus começam a conhecer a cultura indiana, mas também se esforçam por impor a cultura ocidental na Índia; a partir do final do século XIX, começa um movimento nacionalista, pela independência – que só vai ser obtida após a segunda guerra mundial; no fim do século XIX e início do século XX começam a ser criadas as primeiras formas de Yoga modernas, combinando aspectos da tradição indiana com influências científicas, médicas, religiosas e culturais da Europa

Em agosto de 1947, o antigo império britânico na Índia foi dividido em duas partes – Índia e Paquistão – que ganharam sua independência política 

 

O MITO DA "INVASÃO ARIANA"

O antigo povo indiano que compôs os Vedas chamava a si próprio de "ārya" – uma palavra sânscrita que pode significar nobre, excelente, honrado. No século XIX, alguns autores europeus afirmaram que os āryas eram um povo guerreiro que invadiu o território indiano, venceu os povos drávidas que existiam lá antes, destruiu suas cidades e implantou uma nova cultura, baseada no idioma sânscrito e na religião vêdica. Essa invasão teria ocorrido aproximadamente 2.000 anos antes da era cristã. Uma das evidências arqueológicas utilizadas para justificar essa hipótese foi a existência de antigas cidades no vale do rio Indus, como Mohenjo-Daro e Harappa, que foram construídas em torno de 2.500 a.C. e que deixaram de ser habitadas entre 2.000 e 1.800 a.C. Segundo a hipótese da invasão ariana, essas cidades teriam sido construídas e habitadas por uma outra civilização, que foi vencida e aniquilada pelos arianos. 

Os hinos dos Vedas falam sobre guerras entre os āryas e outros povos, mas isso não justifica a hipótese da invasão. Nenhum hino dos Vedas diz que os āryas vieram de outra região e invadiram a Índia. Nenhum hino dos Vedas menciona uma outra região onde os āryas teriam vivido. Os Vedas afirmam que os āryas viviam na região dos sete rios do noroeste do subcontinente indiano, não tendo nenhuma indicação de que teriam vindo de outro local nem descrevendo terras distantes. 

Além disso, as antigas cidades do vale do rio Indus certamente não foram destruídas por invasores. Atualmente sabemos que a região onde elas estavam era inicialmente muito fértil, por causa de um rio que passava por lá (o rio Sarasvatī, mencionado nos Vedas). Porém, em torno de 1.900 a.C. houve mudanças geológicas nessa região, que desviaram as águas do Sarasvatī e transformaram boa parte do noroeste do subcontinente indiano em um deserto. Foi por isso (e não por causa de guerras) que as antigas cidades foram abandonadas, ocorrendo uma migração na direção leste.

Há poucos restos humanos nas ruínas dessas cidades, indicando que não ocorreu um massacre. O exame desses restos não permitiu determinar que tipo de povo habitava o vale do Indus. Pode ser que seus habitantes fossem o mesmo povo que compôs os Vedas, ou não. Ainda há muitas coisas a seres esclarecidas. Porém, a "invasão ariana" certamente é um mito, sem fundamentação científica. 

 

SHRI YOGA DEVI

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