Navarātri - As nove noites da Deusa

Atualizado: 24 de Set de 2019

Por Flávia Bianchini


No ano de 2006, pela primeira vez, eu me dediquei a práticas intensas para a Devī – a Grande Deusa indiana – durante o festival de Navarātri. Esse ano foi muito especial e literalmente mágico e espiritual em minha vida. Passei por sucessivas experiências espirituais que culminaram com práticas realizadas no Navarātri, em setembro daquele ano. Na época, eu não sabia absolutamente nada sobre o assunto, sobre a existência dessa festividade, muito menos sobre a importância e o impacto espiritual quando um praticante decide se entregar a práticas espirituais intensas durante dez dias. Tudo foi ocorrendo espontaneamente ao longo do ano, as informações necessárias foram chegando e fiz diversas práticas que me prepararam, até o mês de setembro, completadas com a realização de dez dias de vivências por ocasião do Navarātri. Não vou expor aqui minha vivência com a prática, mas quero compartilhar informações e algumas orientações sobre o Navarātri para que outras pessoas também possam se beneficiar e se transformar.” Flávia Bianchini


Navarātri” é o nome da principal festividade indiana dedicada à Grande Deusa. “Navam” significa nove, e “rātri” significa noite (Festival das Nove Noites). Essa comemoração dura 9 dias (ou 10 dias em algumas tradições, sendo o último denominado “dia da Grande Vitória”). É realizada cinco vezes por ano. O principal desses festivais é chamado Mahā Navarātri (o grande Navarātri), ou Śaradā Navarātri (o Navarātri de outono). Sua época é fixada em função das fases da Lua, por isso em cada ano seu início ocorre em uma data diferente, pelo nosso calendário ocidental. Inicia-se no primeiro dia da quinzena brilhante do mês lunar de Aśvina, que cai em setembro ou outubro. Em 2019, o Śaradā Navarātri começa no dia 29 de setembro e termina no dia 08 de outubro.


Durante o Navarātri, as pessoas se reúnem, à noite, para dançar e festejar, ou fazem cerimônias fechadas. Os devotos fazem pūjā (rituais) e fazem diversos oferecimentos à deusa Durgā. As celebrações são bastante complexas e variam de uma região da Índia para outra. Originalmente, o festival do Navarātri está associado especialmente à Deusa Durgā. Por isso o Navarātri é chamado também de Durgā Pūjā (culto à deusa Durgā) em algumas regiões.


A deusa Durgā (“a inacessível”) é também chamada de Grande Deusa (Mahā Devī), ou Śakti (a Poderosa). Ela é representada como uma guerreira, tendo por veículo um tigre ou leão, munida de um grande número de armas divinas que segura em suas várias mãos. Por montar sobre um leão, ela é chamada de Siṃhavahinī (aquela cujo veículo é o leão). Costuma estar vestida de vermelho. Embora as representações de Durgā sejam variadas, ela costuma ser representada com dez mãos, segurando espada, concha, disco, rosário, sino, taça, escudo, arco, flecha e lança.


Em alguns locais há tanto o décimo dia (denominado Vijaya Daśamī ou daśarātra), que completa o festival, e um dia anterior ao início do Navarātri, chamado Mahālaya, que é uma preparação para as comemorações.


Em diferentes partes da Índia, esse festival é comemorado de modos bem distintos. No Sul da Índia é comum a divisão do Navarātri em três partes com três dias cada, associados a Durgā (a Deusa guerreira), Lakṣmī (a Deusa da abundância) e Sarasvatī (a Deusa da sabedoria). No Norte da Índia, todo o festival é dedicado a Durgā, sem menção a Lakṣmī e Sarasvatī; porém cada dia é dedicado a uma das Navadurgā (nove manifestações de Durgā).

Em algumas regiões, o Navarātri é interpretado como um festival Vaiṣṇava (dedicado a Viṣṇu), quando se celebra a batalha entre Rāma (um dos avatāras de Viṣṇu) e o demônio Rāvaṇa. Por isso, ele recebe em alguns lugares o nome de Rām Līlā.


A Grande Deusa pode ser considerada sob dois aspectos opostos: benevolente e terrível. Em suas manifestações bondosas, ela é chamada de Umā (a brilhante), Gaurī (a dourada), Pārvatī (a filha da montanha), Jagatmātā (mãe do mundo) e outros nomes que traduzem seus aspectos positivos e sattvicos. Seus aspectos assustadores têm nomes como Durgā (a inacessível), Kālī (a negra), Caṇḍī (a feroz), Bhairavī (a terrível). No entanto, mesmo esses aspectos que parecem negativos são positivos, indicando a necessidade eventual de manifestação de poderes destruidores para se atingir um objetivo elevado.


O Navarātri evoca uma situação mitológica primordial, descrita no texto chamado Devī Māhātmya (a glorificação da Deusa), que corresponde aos capítulos 81-93 do Mārkaṇḍeya Purāṇa. Segundo essa obra, todo o universo estava ameaçado por poderosos demônios. Os deuses masculinos (devas) foram vencidos e se viram incapazes de lidar com esse grande perigo. Precisaram então invocar a Grande Deusa, que lutou durante nove dias contra as forças malignas e as venceu.


Nessa obra, a Deusa assume três formas diferentes para combater seres demoníacos que perturbam o equilíbrio do universo. A primeira delas é Mahākālī, a segunda é Mahālakṣmī e a terceira manifestação é Mahāsarasvatī.


Os poderes demoníacos que são destruídos pela Grande Deusa podem ser interpretados tanto sob o ponto de vista externo (forças cósmicas negativas) como sob o ponto de vista interno (nossas impurezas e fraquezas, como ódio, inveja, ciúme, ignorância, violência).

Na mitologia, Durgā combate os demônios, vencendo as forças negativas e restaurando o poder dos devas. Na vida espiritual, ela é invocada pelos seus devotos para proteger de todos os poderes maléficos e também para purificar de falhas pessoais (os demônios internos). A luta de Durgā contra os demônios simboliza a luta do bem contra o mal, em todos os níveis. Por isso, esse festival é muito auspicioso.


Seguindo a estrutura do Devī Māhātmya, uma das versões do Navarātri, comum no Sul da Índia, estabelece uma divisão de três grupos de três dias, em que diferentes formas da


Grande Deusa são cultuadas:


Os três primeiros dias: Durgā

Do quarto ao sexto dia: Lakṣmī

Do sétimo ao nono dia: Sarasvatī

Décimo dia (Vijaya Daśamī ou Dia da Vitória)


Na tradição hindu, a Deusa, Mãe Divina, ou Śakti (energia feminina), é apresentada em suas três formas principais: (1) Durgā (que pode assumir a manifestação de Kālī), a deusa da Destruição, é a forma guerreira da Deusa, capaz de eliminar os poderes negativos; está associada ao poder (guṇa) tamas, que representa trevas, inércia, morte ou ignorância; (2) Lakṣmī, a deusa da Prosperidade, representa a proteção e preservação daquilo que é positivo; está associada ao guṇa sattva (luz, sabedoria, equilíbrio, bondade); e (3) Sarasvatī, a deusa do Conhecimento, representa a energia criadora e a origem da sabedoria, estando associada ao guṇa rajas (ação, produção, atividade, paixão, violência). A Śakti é o poder divino supremo, que combina os aspectos dessas três manifestações (Durgā, Lakṣmī, Lakṣmī).


Considera-se, na tradição indiana, que o Navarātri é uma ótima ocasião para dar início a atividades com significado espiritual.



“Saudações a Divina Mãe Durgā, que existe em todos os seres na forma de inteligência, misericórdia, beatitude, que é a consorte do Senhor Śiva que cria, sustenta e destrói todo o universo”


Prática para o período


Para nós, no Brasil, é impossível participar diretamente do autêntico festival indiano. Porém, podemos aproveitar esses dias e noites em que a Deusa está sendo comemorada por milhões de pessoas na Índia, unindo-nos espiritualmente a esse movimento.


A Grande Deusa é o poder divino que existe tanto dentro de cada pessoa quanto sob a forma de um poder cósmico. Invocá-la e cultuá-la significa, por um lado, tentar se colocar em sintonia com uma divindade que existe como uma realidade independente de nós e que é superior a tudo; e, por outro lado, significa ativar as forças divinas que existem dentro de nós.


Estabeleça seu saṅkalpa (resolução, intenção, dedicação, meta, propósito) para a prática. Se você decidir fazer a prática durante os nove dias, não pare no meio, porque isso será prejudicial.


Durgā representa a destruição da negatividade e está associada ao guṇa tamas (trevas, destruição); Lakṣmī representa a proteção e preservação daquilo que é positivo, associada ao guṇa sattva (luz, sabedoria, equilíbrio, bondade); e Sarasvatī representa a energia criativa e a origem da sabedoria, associada ao guṇa rajas (ação, produção, violência). A Śakti é o poder divino supremo, que combina os aspectos dessas três manifestações (Durgā, Lakṣmī, Lakṣmī).


Propomos, a seguir, uma prática de repetição de mantras, que nos permite participar ativamente do Navarātri. Lembre-se que, em 2019, o Śaradā Navarātri começa no dia 29 de setembro e termina no dia 08 de outubro.


TRÊS PRIMEIROS DIAS: DURGĀ


Mahā Durgā (a grande Durgā) é a Śakti (energia feminina ou consorte) do deva Śiva, aquele que corresponde ao terceiro aspecto da Trimurti (Trindade Hindu) e representa o aspecto destruidor e transformador. Sendo assim, ela manifesta o poder destruidor de Śiva, que é a característica do guṇa tamas, representado pela cor preta. Durgā vence a escuridão, destruindo a ignorância para que a transformação possa ocorrer. Ela é aquela que remove os obstáculos. Uma prática simples, nesses três primeiros dias do Navarātri, consiste em fazer, em cada dia, 108 repetições do mantra: Oṁ Dūṁ Durgāyai Namaḥ


QUARTO AO SEXTO DIA: LAKṢMĪ


Mahā Lakṣmī (a grande Lakṣmī) ou Śrī Lakṣmī, aquela que promove a prosperidade, é a Devī que corresponde ao deva Viṣṇu, o aspecto preservador e conservador da Trimūrti. Como sua Śakti (energia feminina), ela representa a qualidade sattva (equilíbrio, pureza) necessária para garantir a preservação da Criação. Lakṣmī simboliza o poder do pensamento purificado e é a encarnação do amor e da misericórdia. Por isso, o órgão que a representa é o coração e sua cor é o vermelho. Do quarto ao sexto dia, faça 108 repetições do mantra: Oṁ Śrīṁ Mahā Lakṣmyai Namaḥ


SEXTO AO NONO DIA: SARASVATĪ


Sarasvatī (literalmente, “aquela que flui”) é a consorte do deva Brahmā, o aspecto criador da Trimurti. Como sua Śakti, ela simboliza rajas (atividade), necessária à sabedoria. Por isso, ela é representada pela cor branca. Sarasvatī também simboliza a boca e a pureza da fala (que confere poder à palavra proferida). Sarasvatī é considerada a deusa das ciências, das artes e da sabedoria. Do sexto ao nono dia, faça 108 repetições do mantra: Oṁ Aiṁ Sarasvatyai Namaḥ


Boa prática!


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