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EU SOU
Flávia Bianchini
Satyananda Svarupini (Flávia). Sou Instrutora de Kundalini Yoga e Artista Plástica. Coordeno o espaço Shri Yoga Devi onde ministro aulas de Yoga. Veja o site: www.shri-yoga-devi.org

Maha Devi
"Do meu Poder tudo brota,
Por meu Poder tudo se sustenta,
Por meu Poder tudo se dissolve.
Eu sou este Brahman sem dualidades."
Kaivalya Upanisad

O mantra Gayatri

O mantra Gāyatrī é um dos mais importantes de todos os mantras utilizados na tradição indiana. Vamos apresentar aqui algumas informações sobre ele.

Hindu cantando o Gayatri Mantra

No período dos Vedas, Gāyatrī era o nome de um tipo de métrica utilizada nos hinos vêdicos, e passou depois a designer um mantra específico, dedicado à divindade solar (deva) Savitṛ. Gradualmente, esse mantra passou a ter uma importância cada vez maior, e depois (posteriormente à fase dos Vedas) o nome Gāyatrī passou a ser utilizado para indicar uma divindade (devī) associada à sabedoria e à palavra. Veja mais informações sobre a Deusa Gāyatrī nesta outra página.

Inicialmente, o nome Gayatrī era apenas a designação de um tipo especial de métrica utilizada nos Vedas, sendo considerada a mais sagrada de todas. Algumas das métricas mais utilizadas nos Vedas são estas:

Gayatrī – cada estância tem 3 versos de 8 sílabas
Anuṣṭubh – 4 versos de 8 sílabas
Triṣṭubh – 4 versos de 11 sílabas
Jagatī – 4 versos de 12 sílabas
Sakvarī – 4 versos de 14 sílabas
Bṛhatī – 8–8–12–8 sílabas

O Gāyatrī Mantra (Savitrī Mantra) é parte de um hino longo, no Ṛg Veda (III.62), dedicado a diversas divindades:
Estâncias 1-3 Indra
4-6 Bṛhaspati
7-9 Pūṣan
10-12 Savitṛ
13-15 Soma
16-18 Mitra-Varuṇa

Savitar - o Sol nascente

O deva Savitṛ é o Sol nascente, aquele que afasta as trevas e traz a luz a todas as pessoas - tanto no sentido literal quanto no sentido simbólico. 

Aqui está uma tradução de uma parte do hino Ṛg Veda III.62:
4 Que nossas oblações possam agradar Bṛhaspati, amado entre todos os devas; dê riquezas àquele que te traz oferendas!
5 No sacrifício, nós cultuamos o puro Bṛhaspati com nossos hinos; eu oro por um poder invencível.
6 O touro entre os homens, que ninguém engana, que reveste à vontade todas as formas; Bṛhaspati ultrapassa a todos.
7 Pūṣan, divino, brilhante, este nosso novo hino de louvor é cantado para ti.
8 Aceita com amor esta minha oração, seja bondoso para com meu pensamento respeitoso, como um noivo para com sua noiva.
9 Aquele que vê todas as coisas múltiplas e vê os mundos completamente unidos, que ele, Pūṣan, seja nosso protetor.
10 Que possamos atingir aquele esplendor excelente da divindade [deva] estimuladora [Savitṛ]; que ele fortaleça nosso intelecto [dhī].
11 Ao deva Savitṛ, com nosso intelecto, ansiosos pelo poder, nós oramos pelo dom da prosperidade.
12 O deva Savitṛ é cultuado pelos sábios com hinos e rituais sagrados, estimulados pelo impulso do seu intelecto. 

A estância em negrito (Ṛg Veda III.62.10) é o Gāyatrī Mantra, também chamado Savitrī Mantra.

O rishi Vishvamitra
O rishi Vishvamitra

Atribui-se ao vidente Viśvāmitra a maior parte da Maṇḍala III do Ṛg Veda, incluindo o famoso Gāyatrī Mantra. 

Esse mantra é considerado a essência dos Vedas. Na tradição posterior, os brāhmaṇas eram obrigados a recitá-lo muitas vezes (em geral, 108 vezes), preferivelmente em três momentos especiais de cada dia: ao alvorecer, ao meio-dia e ao anoitecer (prātaḥsaṃdhyā, mādhyānika, sāyaṃsaṃdhyā). A recitação do Gāyatrī Mantra é parte essencial do saṃdhyāvandana (ou simplesmente saṃdhyā), um ritual religioso que deve ser realizado por todos os hindus. O termo sânscrito saṃdhyā significa “união”, e representa a junção entre dois momentos especiais, como a junção entre a noite e o dia, ou a junção entre a manhã e a tarde.

Savitṛ (ou Savitar) é uma divindade associada ao Sol e à luz - especialmente o Sol nascente, que traz o dia após as trevas da noite. A recitação do mantra Savitrī é um pedido para o despertar da luz interna.

O Gāyatrī Mantra (Savitrī Mantra) é escrito em sânscrito da seguinte forma:

Gayatri mantra em devanagari

    oṃ
    bhūr bhuvaḥ svaḥ |
    tat savitur vareṇyaṃ |
    bhargo devasya dhīmahi |
    dhiyo yo naḥ pracodayāt ||
    (Ṛg Veda III.62.10)

Você pode ouvir a pronúncia do mantra através deste arquivo MP3:
gayatri-mantra-Swami-Nardanand.mp3

Este outro arquivo MP3 contém o mantra recitado (cantado) da forma tradicional:
Gayatri-Mantra-tradicional.mp3

Rishi vêdico

As primeiras palavras do mantra não fazem parte do hino do Ṛg Veda:

    oṁ | bhūr bhuvaḥ svaḥ |

Esta introdução apareceu pela primeira vez no Yajur Veda e na Taittirīya Āraṇyaka (2.11.1-8). Ela é constituída pela sílaba sagrada OM, seguida pelas três “grandes esclamações”  (mahāvyāhṛti), bhūr bhuvaḥ svaḥ, que significam as três regiões do universo: terra, atmosfera, céu.

As três linhas seguintes contêm a estrofe do hino vêdico (Ṛg Veda III.62.10) que é a parte principal do Gāyatrī Mantra:

    tat savitur vareṇyaṃ |
    bhargo devasya dhīmahi |
    dhiyo yo naḥ pracodayāt ||

"Que possamos atingir aquele esplendor excelente da divindade [deva] estimuladora [Savitṛ]; que ele fortaleça nosso intelecto [dhī]."

O diagrama seguinte mostra a relação entre as palavras em sânscrito e os termos da tradução. A ordem das palavras é completamente diferente, em português e em sânscrito.

Gayatri mantra - sânscrito e português

Uma tradução literal e fiel de um hino dos Vedas é praticamente incompreensível. Geralmente os tradutores apresentam uma interpretação dos hinos, que é compreensível. No entanto, ao fazer essa interpretação, pode-se restringir ou mesmo falsificar o seu significado. É preciso tomar muito cuidado ao fazer uma tradução dos Vedas, ou ao escolher uma tradução existente.

Vejamos algumas outras traduções e interpretações - várias delas bastante problemáticas:

"Que possamos atingir aquela excelente glória do deus Savitar, para que ele estimule nossos pensamentos" (Ralph T. H. Griffith, 1896)

"Adoremos a supremacia do Sol divino, a divindade que ilumina tudo, que dá vida a tudo, de quem tudo procede, a quem tudo deve retornar, a quem nós invocamos para dirigir nossa compreensão corretamente para seu assento sagrado." (Sir William Jones, 1807)

"Ó tu que dás sustentação ao universo, de quem tudo procede, a quem tudo deve retornar, descubra a face do verdadeiro Sol que agora está oculta por um recipiente de luz dourada, para que possamos ver a verdade e fazer nosso dever em nossa jornada até o teu assento sagrado". (William Quan Judge, 1893)

"Meditamos sobre o poder adorável e a glória daquele que criou a terra, o mundo inferior e o céu (isto é, o universo), e que dirige nossa comprensão." (Sivanath Sastri (Brahmo Samaj, 1911)

"Meditamos sobre a glória daquele Ser que produziu este universo; que ele possa iluminar nossas mentes." (Swami Vivekananda, 1915)

"Meditamos sobre a glória adorável do Sol radiante; que ele possa inspirar nossa inteligência." (Sarvepalli Radhakrishnan, 1953)

Sol nascente

"O Sol Supremo e Todo-Poderoso nos impulsiona com o seu divino brilho para que então nós possamos atingir uma nobre compreensão da realidade.” (Kavikratu Tattva Budh)

"Ó Deus, Tu és o doador da vida, o removedor da dor e da tristeza, que garante a felicidade; ó Criador do Universo, possamos nós receber a Tua suprema luz, destruidora dos pecados; possas Tu guiar o nosso intelecto no caminho certo." (Gayatri Pariwar)

Em uma fase posterior, a transmissão ritual do Gāyatrī Mantra (Savitrī Mantra) se tornou parte fundamental da iniciação (upanayana) dos jovens brāhmaṇas (e das outras duas castas superiores), quando eles recebiam o cordão sagrado (yajñopavita). Na iniciação, a criança se tornava um “dvija”, ou seja, um renascido. A partir de então ele podia receber os ensinamentos sagrados. 

Upanayana

A importância do Gāyatrī Mantra é enfatizada em muitos textos posteriores ao período vêdico, como por exemplo no Código de Manu.

76. Prajāpati (o senhor das criaturas) extraiu dos três Vedas os sons A, U, e M, e bhuḥ, bhuvaḥ, svaḥ.
77. Além disso, dos três Vedas Prajāpati Parameṣṭhin [que reside além das alturas] extraiu o ṛk sagrado de Savitṛ, que começa com a palavra tad, um verso para cada um.
78. Um brāhmaṇa, instruído no Veda, que recita durante o alvorecer e o anoitecer aquela sílaba e os versos, precedidos pelas vyahritis, obtém todo o mérito que é concedido pelos Vedas.
79. Um dvija que repete isso três mil vezes se libertará, depois de um mês, mesmo da maior culpa, como uma cobra de sua pele velha.
80. O brāhmaṇa, o kṣatriya e o vaiśya que deixam de recitar esse ṛk e os ritos nos tempos designados, serão criticados pelos virtuosos.
81. Saiba que as três mahāvyahritis, precedidas pela sílaba Om e seguidas pelo Savitri de três versos são o portal do Veda e a entrada que leva a Brahman.
82. Aquele que o recita diariamente, incansavelmente, durante três anos, atingirá o Brahman mais elevado, ele se moverá livremente com o ar e terá a forma do espaço. (Código de Manu, livro II)

Hindu recitando o Gayatri Mantra ao alvorecer

Tirumular diz o seguinte, no verso 994 do Tirumantiram, acerca das 24 sílabas Gāyatrī: as seis letras são as seis samayas (crenças). Seis multiplicados por quatro é 24, que são as sílabas contidas no Gāyatrī Mantra. A cabeça líder do mantra é OM. Aqueles que conhecem o verdadeiro significado do Pranava [OM] vão eternamente escapar do ciclo de nascimento.

O Gāyatrī Mantra é destinado à realização do divino e é considerado como representando o Senhor Supremo, é a encarnação sonora de Brahman, sendo muito importante na civilização vêdica. O sucesso na recitação deste mantra permite acesso direto à Consciência Suprema. Mas, a fim de cantar o mantra Gayatri, é necessário primeiro adquirir as qualidades da pessoa perfeitamente equilibrada em termos de qualidades de bondade (sattva). 

No Bhagavad Gītā, Kṛṣṇa assim declara sobre o mantra Gāyatrī

“Entre os hinos, eu sou o Brihat Sama [cantado ao Senhor Indra]; entre as métricas eu sou o 
Gāyatrī; dentre os meses, eu sou o margashira (novembro-dezembro); entre as estações, eu sou a primavera”. (Bhagavad Gītā, cap. 10, 35)

Krishna e as gopis

Nas Upaniṣads encontramos várias menções sobre a importância do Gāyatrī Mantra, como estas:

"Essa criação inteira é Gāyatrī. E Gāyatrī é a fala – pois a fala canta (gayati) e protégé (trayati) toda essa criação. Gāyatrī é realmente tudo isso, tudo o que existe. A fala, realmente, é Gāyatrī; pois a fala realmente canta e remove o temor de tudo isso que existe." (Chandogya Upaniṣad 3.12.1)

"O Gāyatrī Mantra se baseia na verdade. Pois a verdade se baseia no poder. O poder é o alento, e se baseia no alento. Assim, Gāyatrī protege (tra) a riqueza (gaya) daqueles que o pronunciam com devoção e dedicação. Quando alguém recita o Gāyatrī em benefício de uma outra, ele também protege a vitalidade daquela pessoa." (Brihadaranyaka Upaniṣad 5.14.4)

"Diz-se que o primeiro verso (oṃ | bhūr bhuvaḥ svaḥ) é equivalente à riqueza contida nos três mundos. Diz-se que o segundo verso (tat savitur vareṇyaṃ) é equivalente à riqueza contida nos três Vedas. O terceiro verso (bhargo devasya dhīmahi) é equivalente a receber um presente que abrange todos os seres viventes. O quarto verso (dhiyo yo naḥ pracodayāt) se baseia na glória do Sol, cujo poder e riqueza permanecem inigualáveis. Portanto, nenhuma riqueza pode igualar os quatro versos do Gāyatrī!" (Brihadaranyaka Upaniṣad 5.14.5)

"O Savitrī Mantra, com o  praṇava (oṃ) e vyāhṛtis (bhūr bhuvaḥ svaḥ), é o melhor meio para atingir Brahman." (Maitri Upaniṣad 6.2)

Estátua de um rishi vêdico

Por causa de sua importância, o Gāyatrī Mantra se tornou posteriormente o modelo de muitos outros mantras semelhantes, dedicados a diversas divindades. Existem, assim, o Gaṇeśa Gāyatrī Mantra e diversos outros, que são todos muito mais recentes do que o Gāyatrī Mantra vêdico.

É possível encontrar na Internet e em CDs de música indiana muitas gravações do Gāyatrī Mantra completamente diferentes umas das outras. A recitação tradicional, no período dos Vedas, não era acompanhada por nenhum instrumento musical. A maioria das versões encontradas hoje em dia utiliza um fundo musical e consiste em adaptações para agradar o gosto ocidental, como a de Deva Premal, que é muito popular e pode ser encontrada também no YouTube:
Gayatri_Mantra_alt_60-Deva-Premal.mp3

Elas não têm nada a ver com a tradição indiana, mesmo se aparecerem em sites indianos ou se estiverem associadas a pessoas com nomes indianos... É necessário utilizar um pouco de espírito crítico, quando se quer conhecer a verdadeira tradição espiritual da Índia. Não se deixe enganar! Não compre gato por lebre, como se costuma dizer...

Gato por lebre

Mesmo as versões que não utilizam fundo musical podem não ser fiéis à pronúncia original. Os norte-americanos, por exemplo, têm uma enorme dificuldade em pronunciar a letra “r” do sânscrito, e é possível notar em muitas gravações um “r” estranho (como a pronúncia do “r” na palavra “porteira”, no interior de São Paulo e de Minas Gerais).

A seguir disponibilizamos diversas outras versões do Gāyatrī Mantra, em MP3. Você pode copiá-las e/ou ouvi-las online, e refletir sobre qual (ou quais) delas seguem a pronúncia e o estilo tradicional, e quais são adaptações contemporâneas, sem muita relação com a tradição. 

Gayatri-1.mp3

Gayatri-2.mp3

Gayatri-3.mp3

Gayatri-4.mp3

Gayatri-5.mp3

Gayatri-6.mp3

Gayatri-7.mp3

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