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EU SOU
Flávia Bianchini
Satyananda Svarupini (Flávia). Sou Instrutora de Kundalini Yoga e Artista Plástica. Coordeno o espaço Shri Yoga Devi onde ministro aulas de Yoga. Veja o site: www.shri-yoga-devi.org

Maha Devi
"Do meu Poder tudo brota,
Por meu Poder tudo se sustenta,
Por meu Poder tudo se dissolve.
Eu sou este Brahman sem dualidades."
Kaivalya Upanisad

MITOLOGIA:

A DEUSA MAHA MAARIYAMMAN DO SUL DA ÍNDIA

Maariyamman é principalmente adorada pelo povo do Sul da Índia, do Tamil Nadu, Sri Lanka e na região do Sudeste Asiático, especialmente entre os falantes de Tamil, Telugu, Kannada, Malayalam ou Tulu. Popularmente é cultuada pelos indianos no exterior, principalmente pelo povo tâmil que habita em outras terras, porque ela é vista como sendo o seu protetor durante a sua estada em terras estrangeiras. Maariyamman é considerada uma manifestação da deusa Parvati, uma encarnação incorporada como a Mãe Terra, com toda a sua força terrível.

Shri Maariyamman também é considerada a deusa da chuva, é celebrada e adornada como a consorte do Senhor Shiva. Como qualquer outra grande deusa ela é muitas vezes identificada com vários outros nomes, como Kalmaariyammal, Bhadramaariyamma, Karumaariyamma, Muttumaariyamma, Ammae e Marimuthu.

Mariyammam

Ela é considerada uma das mais populares “deusas de aldeia”, e considerada uma deusa das pessoas pobres e moradores das pequenas vilas. Seus templos principais estão situados em várias partes dos diversos estados do país. O povo hindu está demonstrando atualmente grande interesse em adorar deusas como Shri Maariyamman, e acredita-se que ela seja o símbolo do sacrifício e da maternidade, e que ela oferece riqueza abundante e boa saúde para seus devotos fiéis. Ela está associada com diversas doenças e à febre e protege seus devotos de eventos profanos ou demoníacos. Ela é adorada como uma deusa que salva o povo das doenças virais, como a varíola, sarampo e varicela. As folhas e a árvore de Margosa, açafrão em pó e chuva são os elementos associados com a adoração da deusa Maariyamman.

deusa Mariyammam

 
ORIGEM

Maariyamman também é conhecida em tâmil como Mari, e Mariaai em Marathi, ambas significando “Mãe”. No tâmil antigo, a palavra “Maari”, que perdeu suas raízes ao longo de seu uso, significaria chuva e “Amman”, literalmente, significa mãe, mas aqui significa “mãe natureza”. Seu nome é expresso também como Maariyamma ou simplesmente Amam ou Aatha (“mãe” em tâmil) e é considerada a deusa hindu da chuva no sul da Índia, sendo adorada pelos povos antigos que lhe pediam para lhes trazer chuva e prosperidade (pois suas plantações dependiam da chuva). A deusa não era uma divindade puramente local, conectada a um local específico, perto de certa árvore, uma pedra ou um lugar especial, mas adorada por toda a população. De acordo com algumas fontes, Maariyamman é a mesma que Renuka ou Yellamma; ou estas e Sri Chowdeshwari Devi, Sri Thailuramma Devi, Huchamma Devi, Manchamma Devi, Chwodamma Devi ou Chowdeshwari seriam consideradas as suas sete irmãs mais velhas.

Além da região de Tamil Nadu, ela é a principal deusa-mãe nas áreas rurais de Karnataka, Andhra Pradesh e Maharashtra. Mari está intimamente associada com as deusas hindus Durga e Kali, bem como com a sua contraparte norte-indiana Shitaladevi. A deusa Maariyamman e a Deusa Kali estão intimamente associadas entre si. Maariyamman é uma forma de Durga que assumiu a forma de Kali. Embora muitos considerem que Maariyamman seja outra forma de Durga ou Kali, os rituais e mitologias envolvidos são completamente diferentes de qualquer uma destas deusas.

deusa MariyammamDeusa adorada como “Mãe da chuva”, para trazer chuvas, protegendo as pessoas contra as secas, e também para curar doenças.


ORIGEM DO NOME

Muitas outras etimologias têm sido oferecidas para os nomes de Maariyamman. Vejamos algumas delas:

a) Muttu: é uma palavra que significa ‘pérola’. Esta terminologia também sugere que neste caso ‘pérolas’ podem estar se referindo às pústulas, muitas vezes contraídas durante o início da catapora ou varíola.

b) Mari: está associada com a peste e doença, o que pode sugerir um possível significado como “a mãe da doença”. Alguns têm associado à palavra Mari com sua capacidade de mudar de repente, pois “Mari” também pode significa ‘mudar’ em tâmil. Esta palavra “mudança” a descreve como tendo uma tendência imprevisível e perigosa para o calor, raiva e violência. Ela também tem sido descrita, por vezes, eufemisticamente, como uma deusa “fria”, ou como uma deusa cuja imagem gosta de ser arrefecida com a água. Porque ela é tradicionalmente mais ativa no pico da estação quente e chuvosa quando o perigo febres contagiosas aumenta; e quando as chuvas são desejáveis, ela é abordada por adoradores solicitando frescor e chuva.

c) Ammae: significa Mães. Este termo é mais honroso do que descritivo. Maariyamman é frequentemente descrita como sem filhos. Na maior parte da história sobre Maariyamman, ela é descrita como sendo uma viúva, uma menina ou uma mulher expulsa de sua casa por seu marido.

deusa Mariyammam


ICONOGRAFIA

Mariyammam é geralmente retratada como uma mulher bonita com um colorido vermelho no rosto, usando um vestido vermelho. Às vezes ela é retratada com muitos braços, representando seus muitos poderes, mas na maioria das representações ela tem apenas dois ou quatro.

Mariyammam é geralmente retratada na posição sentada ou em pé, muitas vezes segurando um tridente (trishula) em uma mão e uma tigela (kapala) na outra. Uma de suas mãos pode exibir um mudrá, geralmente o abhaya mudrá, para afastar o medo. Ela pode ser representada com dois comportamentos, um com uma exibição de sua natureza agradável, e o outro representando seu aspecto aterrorizante, com dentes agressivos e uma selvagem juba de cabelo.

deusa Mariyammam


DEUSA DA DOENÇA

Maariyamman cura todas as assim chamadas doenças “baseadas em calor”, como varíola e erupções cutâneas, problemas de bexiga, cólera, etc. Durante os meses de verão no sul da Índia (março a junho), as pessoas andam quilômetros carregando potes de água misturada com açafrão e folhas de neem para afastar as doenças como o sarampo e varicela.

A ela também tem sido creditada a causa e o alivio da tuberculose. Há duas terminologias empregadas quando Maariyamman é associada com essas doenças: “Mãezinha” e “Grande Mãe”. Mãezinha quando se descreve a sua capacidade de causar e prevenir a catapora, e Grande Mãe quando ela está associada com doenças mais infecciosas e graves. 


DEUSA DA FERTILIDADE

Os devotos também rezam para Maariyamman pelo bem-estar familiar, trazendo bênçãos tais como fertilidade, descendência saudável ou um bom cônjuge. A oferta mais oferecida é “pongal”, uma mistura de arroz e grama verde, cozido no complexo do templo ou no santuário, em potes de terracota e utilizando lenha. Alguns festivais em honra da deusa Mari envolvem procissões carregando luzes. Durante a noite, os devotos carregam lâmpadas de óleo durante toda a procissão.

deusa Mariyammam


TEMPLOS

O principal santuário dedicado a Maariyamman é o Templo Sri Maha Mariyamman em Kuala Lumpur, na Malásia. A maioria dos templos para Maariyamman são simples santuários nas aldeias, onde uma pessoa qualquer, não brâmane, atua como sacerdote leigo usando rituais não agâmicos. Em muitos santuários rurais, a deusa é representada por um granito de pedra com uma ponta afiada, como uma cabeça de lança. Esta pedra é muitas vezes adornada com guirlandas feitas de limões e com flores vermelhas. Esses santuários, muitas vezes têm um formigueiro que pode ser o local de descanso de uma cobra, onde leite e ovos são oferecidos para propiciar a cobra. Alguns templos também alcançaram popularidade suficiente para que brâmanes oficiem neles. Por exemplo, o templo Samayapuram perto da costa do rio Cauvery na periferia norte de Trichy mantém uma rica tradição agâmica e todos os rituais são realizados por uma Gurukkula de brâmanes.

Punainallur, perto de Thanjavur (Tanjore), é o local de outro famoso templo dedicado Mari. A lenda diz que Maariyamman apareceu para o rei Maharaja Venkoji Chatrapati (1676-1688) de Tanjore em seus sonhos e lhe disse que ela estava em uma floresta de árvores Punna três milhas distantes de Tanjore. O rei correu para o local e recuperou um ídolo da selva. Sob as ordens do rei, um templo foi construído, e o ídolo instalado no lugar foi chamado de Punnainallur. Daí a divindade do templo é conhecido como Punnainallur Maariyamman. Réplicas de barro de diferentes partes do corpo humano são colocadas no templo, como ofertas dos devotos implorando por sua cura. Diz-se que a filha de Tulaja Raja (1729-1735) de Tanjore, que perdeu a visão devido à doença, a recuperou depois de adorar neste templo.

O festival do templo de Erode Maariyamman, é considerado um grande festival em Tamil Nadu. Três deusas Maariyamman chamadas pequena, média e grande Maariyamman, localizadas em três cantos da cidade, unem-se para um festival na estação do mês de abril, que termina no rio Cauvery onde jogam na água do rio o Kambam (que representa o marido de Maariyamman).

Templo Sri Maha Mariyammam, em
                              Kuala LumpurTemplo Sri Maha Mariyamman, em Kuala Lumpur

TRADIÇÃO HINDU E ADORAÇÃO

Na tradição hindu, Maariyamman também é considerada por alguns como sendo a irmã do Senhor Vishnu (Sriranganathar) e sob essa forma é chamada de Mahamaya. Em referência aos stotras sânscritos, sugere-se que Maariyamman não é irmã do Senhor Vishnu, mas sim o aspecto feminino do Deus. O Senhor encarna nesta forma durante a Kali Yuga, quando o conhecimento é quase nulo ou ignorância esta elevada.

Maariyamman representa os aspectos fundamentais do Senhor na forma do aspecto curativo, para proporcionar direção e despertar o conhecimento. Ela também é denominada como Mahalakshmi, Mahasaraswati, Varamahalakshi e Mahakali. E também representa o aspecto finito de qualidades infinitas.

Outra versão das tradições sugere que ela é a mãe de Parasurama, Renuka Devi, que é aplacada pelas chuvas. Ela também é conhecida como Sri Chowdeshwari Devi na maioria das partes do estado de Karnataka e Andhra Pradesh. Na região de Mysore é cultuada tanto como Chowdeshwari Devi assim como Maariyamman. Há muitos casos em que Maariyamman apareceu para as pessoas em forma de uma velha vestindo um sari vermelho e verde com pulseiras e três mangalsutras. Outra versão descreve-a como Pattalamma, deusa da veracidade e pontualidade. Diz-se que ela pune qualquer aldeão que não praticar essas virtudes. 


RITUAIS PARA MAARIYAMMAN

Várias atividades rituais são realizadas pelos devotos de Maariyamman. Em alguns locais de Tamil Nadu, onde os primeiros templos desta deusa estão situados, as pessoas os usam para realizar algumas atividades rituais como o “pote de Agni” (pote de fogo), a caminhada no fogo e o Kavadi. Esses tipos de atividades rituais são realizados todos os anos durante a época do festival do mês de abril.

Pote de fogo

Antes de realizar estas atividades rituais todos seguem estritamente as regras do “viradam” por um período de 30 dias, e nesses dias as pessoas evitam alimentos não vegetarianos, sexo e outros maus hábitos, incluindo beber licores e fumar. Acredita-se que Shri Maariyamman vai oferecer boa riqueza e saúde para os devotos que realizarem essas atividades rituais.


POTE DE AGNI (THEE CHATTY)

O pote de fogo (Agni) é utiliza uma panela semi-esférica pequena feita de barro e pintada com cores variadas. O pote é parcialmente cheio de casca de arroz e alguns pedaços de madeira de margosa para fazer o fogo na panela. Incendiam o interior do pote e também utilizam cânfora. A mistura de óleos de rícino com gingeli é adicionado às varas de margosa para obter fogo constante. Os potes Agni são carregados pelos devotos em suas mãos a partir de sua casa até o templo principal de Shri Maryiamman e o mesmo é deixado no canto do santuário. A música tradicional como Nadhaswaram e Melam acompanha esta atividade ritual. E surpreendentemente a fumaça que sai do fogo da panela tem cheiro agradável e não causa irritação aos olhos e nariz.

Pote de fogo


KAVADI

Kavadi são duas peças semicirculares de madeira ou de aço e ambas ligadas a uma barra horizontal na parte inferior ou superior. Geralmente são decorados com papéis ou tecidos coloridos e brilhantes. Às vezes, as duas extremidades do kavadi são guarnecidas com pequenos vasos contendo água sagrada ou leite. Os devotos transportam os kavadis em seu ombro e dançam com eles até chegar ao templo principal de Shri Maariyamman. Este ritual também é acompanhado pela música tradicional Nadhaswaram e Melam.

Kavadi


CAMINHADA NO FOGO

A caminhada no fogo é realmente a atividade ritual considerada mais difícil pelos verdadeiros devotos de Sri Maariyamman. Durante o tempo de realização do festival uma fogueira é preparada com pedaços de madeira em um lugar próximo ao templo principal. A madeira queimada é quebrada em pedaços pequenos para obter uma camada de brasas.

Caminhada no fogo

Os devotos carregando potes de fogo ou kavadi se atrevem a andar sobre as brasas. Isto é realizado apenas por muitos poucos devotos com força de vontade e confiança.

Caminhada no fogo


MITOS

Uma história sobre a origem do Maariyamman é que ela era a esposa de Thiruvalluvar, o poeta tâmil, que era um pária. Ela pegou varíola e implorou de casa em casa por alimento, abanando-se com folhas de neem ou árvore margosa para manter as moscas fora de suas feridas. Ela se recuperou e as pessoas passaram a adorá-la como a deusa da varíola. Para manter a varíola à distância, folhas de neem são penduradas acima das entradas principais dos lares indianos do Sul.

A palavra tamil “Muthu” significa pérola e no uso antigo da língua ‘Muthu Maari’ era uma celebração, de maneira poética para dizer que “a chuva cai em gotas”, sendo assim relacionada com as pérolas dadas pela divindade da natureza para a propriedade. Maariyamman também foi chamada de “Muthu Maariyamman”, que significava a deusa que dá chuva próspera. Isto foi erroneamente ligado à forma dos pequenos tumores que ocorrem durante a varicela. A adoração poderia ter começado devido ao fato de que a varicela é resultado do calor extremo do verão e que com a chegada da chuva eles se salvavam da doença, mas não há evidências adequadas para provar este ponto de vista.

Folhas de neem provaram ter antibióticos e possuírem outras capacidades medicinais. Estes benefícios eram bem conhecidos pelos povos antigos do sul da Índia e possuíam um papel importante no seu dia-a-dia. Eles possuem até mesmo o hábito e a prática de tomar uma dose de óleo de neem duas vezes ou mais ao ano para matar germes no estômago. Esse uso das folhas de neem durante uma doença foi erroneamente compreendido e interpretado de diferentes maneiras nas histórias. Uma grande parte dos povos que criaram os deuses para seu benefício no passado parece olhar para ela hoje como uma “deusa humilde” ou como uma deusa que é adorada apenas pela parte não civilizada da sociedade.

deusa Mariyammam

Outra história envolve a bela e virtuosa Nagavalli, que era a esposa do Rishi Piruhu, um dos nove grandes rishis nos velhos tempos. Ela era famosa por sua beleza e também por sua virtude. Um dia, quando o rishi estava longe de casa, Brahma, Vishnu e Shiva foram visitá-la para ver se ela era tão bonita e tão virtuosa como era relatado. Sem saber quem eram e ressentindo a sua intrusão, ela os transformou em pequenas crianças. Eles se ofenderam e a amaldiçoaram, de modo que sua beleza desapareceu e seu rosto ficou pontilhado com marcas como as da varíola. Quando Piruhu voltou e a encontrou assim, desfigurada, ele a levou para longe e se dirigiu a ela, declarando que ela iria nascer um demônio no próximo mundo e causaria a propagação de uma doença que faria com que as pessoas se lembrassem dela. Ela foi assim chamada de Mari, que neste contexto significa ‘mudança’. Ambas as histórias são relatadas por Whitehead e ele observa que em Mysore, ele foi informado de que Mari significava Shakti, o poder.

O culto de Maariyamman provavelmente se originou a partir da religião tribal do Sul da Índia – segundo a tradição, entre as tribos da montanha, como no sul de Karnataka. Nestes locais sacrifícios humanos eram oferecidos a Maariyamman. Como o povo não sabia de nenhuma outra maneira de escapar das secas, essas tradições surgiram em uma tentativa de agradar a natureza e também como uma forma de mostrar suas dificuldades sem a chuva. Tais sacrifícios foram mantidos em prática até recentemente. Eles foram substituídos por sacrifícios de animais; mas em algumas aldeias sacrifícios de animais não são mais oferecidos.

Deusas locais, como Maariyamman que se acreditava proteger as aldeias e as suas terras e que representam as diferentes castas de seus adoradores, sempre formaram uma parte importante da paisagem religiosa do sul da Índia. No entanto, podemos observar em alguns períodos isso como um significado especial. O ecletismo do período Vijayanagar (1336-1565) incentivou a religião popular, que se tornou mais importante e influenciou as formas mais alfabetizadas da religião. No último século e meio, houve um renascimento da auto-consciência do Tamil, e assim, no meio do presente século, divindades como Maariyamman tornaram-se ligadas à “grande tradição”, assim como aos demais estratos da sociedade, que passaram a adorar a deusa, tornando sua adoração integrada na ordem social mais ampla.

deusa Mariyammam


OUTRAS VERSÕES DA HISTÓRIA DE MAARIYAMMAN

Há outras versões e variações em torno da origem da deusa Maariyamman, vejamos mais algumas delas:

1. Há uma história que fala de uma menina jovem brâmane que foi cortejada por um pariya (um pária), e eventualmente casa-se com o intocável que se disfarçou como um brâmane. Ao descobrir o truque, a mulher fica furiosa e se mata. Ela se transforma em uma deusa e em sua forma divina pune o intocável, queimando-o e reduzindo-o a cinzas ou destruindo-o de outra forma humilhante ou humilhando-o.

Outra versão da história é que a deusa Parvati se implanta (caso clássico de partenogênese) no útero de uma mulher brâmane, e nasce. Na escola, ela conhece um rapaz pariya, que se apaixonou por ela. Ele foi até o pai da menina, ocultando sua casta, e pediu sua mão em casamento. O pai não suspeitou de nada e concordou com o casamento, apenas descobrindo a verdade mais tarde. No entanto, eles também perceberam que não poderiam fazer mais nada desde que o casamento já tinha acontecido. Mais tarde, com a descoberta de seu casamento com um homem de status inferior, a noiva ficou furiosa e olhando para o marido com raiva, ela mudou imediatamente, e o fogo de sua ira envolveu seu corpo. Ele pediu a ela para parar de queimar, mas ela respondeu que mesmo sendo seu marido, ele nunca deveria voltar a entrar na casa, e que deveria ficar fora para sempre. Seu corpo foi reduzido a cinzas com o calor, e onde as cinzas caíram uma árvore margosa cresceu. A jovem havia se tornado uma pessoa mudada: Maariyamman.

2. Renuka era extremamente piedosa, uma esposa pura, que era casada com um devoto santo homem. Ela era tão pura que podia executar tarefas milagrosas, como carregar água em potes de barro não cozido e ferver a água, colocando simplesmente um pote de água na cabeça. Um dia, porém, ela vê dois gandharvas fazendo amor e sente inveja deles.

Renuka

Então ela perde seus poderes miraculosos. Ao descobrir isto e suspeitando de infidelidade, seu marido ordena ao seu filho Parasurama que mate a mãe. O filho obedece ao seu pai e decapita a mãe. Para mostrar seu grande prazer para com o filho, o pai lhe concede uma benção. O filho pede que a vida de sua mãe seja restaurada.

Renuka

Eventualmente, ela é restaurada para a vida, mas no processo sua cabeça se transporta para o corpo de uma mulher intocável. Quando ela volta para casa (em seu novo estado: com o corpo de uma intocável) seu marido se recusar a aceitar a sua nova forma, e amaldiçoa seu lugar. Ela se tornou a portadora da “pérola”, que é o nome dado à varíola. Ela assim passa a ter autoridade sobre esta doença. Ela traz esta doença sobre os rishis que imploram pela cura. Ela lhes oferece a cura se lhe derem a permissão para ir aos quatro mundos ou reinos de Shiva, Vishnu, Brahma e Yama. Os rishis concedem seu desejo. Ela foi então para o mundo de Shiva e causou a doença nele. Em troca da cura, ela recebe seu Shoolani (uma arma bifurcada) e sua vaca. Ela inflige a doença em Vishnu e recebe dele a sua concha e o disco. De Brahma ela recebe autorização para mudar seu nome. Ela deixa de ser Renuka e assume o nome de Maariyamman (a mãe da mudança). Ela então inflige Yama e a esposa de Yama e exige uma grande festa para ela, e só depois retira as “pérolas” do rosto de Yama.

3. Outra versão da história é que, quando o marido se recusa a levá-la de volta, ela é enviada para a aldeia para viver a partir dos presentes e oferecimentos do povo. Aqui ela utiliza seus poderes para proteger todos àqueles que a sustentam com alimentos, oferecimentos e adoração.


O CORTE DA CABEÇA

O ato de restauração da cabeça torna Maariyamman um ser imortal, como no caso da deusa Chinnamasta – “a deusa auto-decapitada”. O corte da cabeça representa simbolicamente a realização da liberação espiritual. A realização de que a pessoa não está separada dos outros, mas sim é parte do grande Eu. No entanto, cortar a cabeça não significa o fim de tudo, pois a capacidade de restaurar a cabeça é a conclusão do processo “sacrificial” em que se marca não a morte, mas a imortalidade.

cabeça da deusa
                            Mariyammam

O Shatapatha Brahmana, afirma em relação ao sacrifício, que “quando alguém recebe uma nova cabeça” ocorre uma transformação que é geralmente interpretada como receber uma “cabeça melhor”, e com referência a Ganesha, quando recebeu sua cabeça de elefante, ele recebeu a “real” cabeça que passa a expressar a sua verdadeira natureza.

Portanto pode-se aplicar esta lógica para o caso de Maariyamman, que neste novo estado de transformação, é capaz de assumir várias formas. Diz-se que ela pode ser imaginada como as sete irmãs. Outra forma que Maariyamman intimamente é associada é Ellaiyamman. Uma deusa muito poderosa, que protege as pessoas de todo o mal. Ela tem uma tropa de demônios sob seu controle. Ela protege as aldeias em todas as quatro direções. A única diferença que distingue Ellaiyamman e Maariyamman é que, Ellaiyammana tem a cabeça de uma intocável e o corpo da mulher brâmane, enquanto Maariyamman tem a cabeça de brâmane e o corpo de uma intocável. Em algumas versões o seu corpo intocável é conhecido como Maatangi. Em algumas representações iconográficas de Ellaiyamman, ela às vezes é representada com a cabeça de uma mulher brâmane na mão.

Maariyamman é assim concebida, como tendo uma cabeça de brâmane e um corpo de intocável, que é significativo em termos de natureza ambivalente revelando o seu papel como uma deusa de aldeia e exemplificando o status quo social em que os brâmanes que estão à frente dos sistemas sociais exercem. Mas em Ellaiyamman é o contrário. A cabeça que simboliza o poder/conhecimento do brâmane (erudição nos Vedas e escolaridade na prática adequada da sabedoria Ritual, da ortodoxia e ortopraxia) está sendo substituído pela cabeça dos intocáveis mostrando o poder destes. Isso no sentido comum é um ato simbólico de subversão, uma inversão do status quo como propagada pelo mito e prática hindu.

deusa Mariyammam


OUTRAS HISTÓRIAS

Existem muitas outras histórias sobre Maariyamman, mas todas elas tendem a cair em duas categorias:

a) Maariyamman como uma mulher exemplar cujo duro e injusto tratamento nas mãos de homens indiferentes ou negligentes, lhe causa grande sofrimento e morte eventualmente imerecida. Em Tamil Nadu, uma morte prematura, valente e injusta é muitas vezes ocasião de apoteose, e neste caso, corpo humano de Maariyamman é transmutado em uma deusa.

b) Maariyamman nascida como intercessão divina (como no caso clássico de partenogênese) e como uma mulher que sofre humilhações e agressões por homens (humanos, demoníacos ou divinos), até que finalmente ela revida devastadoramente e definitivamente, tornando-se uma deusa no processo de potencial e equilibrada vingança.

Vários destes temas são encontrados em quase todos os relatos de histórias acerca de Maariyamman:

1. Em que ela começa a sua vida como uma mulher virtuosa ou como uma deusa exemplar que, nos ciclos de transformação e de renascimento, acontece de nascer como humana. Mas não importa em que forma ela apareça, ela é confrontada e maltratada pelos homens com engano, violência, arrogância ou negligência.

2. Em muitas das histórias, há sempre uma mulher infeliz que vai em auxílio de Maariyamman maltratada ou infeliz proporcionando conforto e abrigo. Neste caso, Maariyamman torna-se um dos melhores exemplos da situação da mulher indiana infeliz, viúva, pária, etc.

Se tivéssemos que resumir as mitologias de Maariyamman no todo, pode-se ver que os homens estão sendo retratados como os autores de violência ou injustiça. As mulheres, por outro lado são companheiras do sofrimento para com a deusa, tal como ela se torna uma delas no mundo onde os homens devem ser derrotados, humilhados e punidos por suas transgressões contra a virtude feminina, inocência e boa vontade.

deusa Mariyammam

Este texto sobre a deusa Mariyammam pode ser copiado, em formato PDF, a partir do link abaixo:
Deusa-Maha-Mariamman.pdf

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